O número de pedidos de falência no Brasil registrou um aumento de 45% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025, totalizando 2.850 solicitações, o maior volume para o período em dez anos. Os dados, divulgados pelo Serasa Experian, refletem o agravamento da crise econômica e o impacto da alta dos juros sobre as empresas.
Setores mais afetados
Os setores de comércio e serviços lideram os pedidos, representando 60% do total. O varejo, especialmente o de vestuário e calçados, foi o mais impactado, com 850 solicitações. A indústria de transformação responde por 20% dos pedidos, enquanto a construção civil aparece com 12%.
De acordo com o economista-chefe do Serasa, Luiz Rabi, "o cenário de juros elevados e inflação persistente está sufocando o fluxo de caixa das empresas, especialmente as de pequeno e médio porte". Ele acrescenta que "a inadimplência recorde também contribui para a incapacidade de honrar compromissos".
Recuperação judicial também cresce
Paralelamente, os pedidos de recuperação judicial aumentaram 30% no mesmo período, totalizando 1.200 casos. O segmento de restaurantes e bares foi o que mais recorreu a esse mecanismo, com 300 pedidos. A recuperação judicial permite que empresas em dificuldade financeira negociem dívidas e evitem a falência.
O advogado especialista em direito empresarial, Carlos Mendes, afirma: "Muitas empresas tentam a recuperação judicial como último recurso, mas o alto custo do processo e a demora na aprovação dos planos acabam levando à falência em cerca de 40% dos casos".
Regiões em destaque
O Sudeste concentra 70% dos pedidos de falência, com São Paulo liderando (1.200 pedidos), seguido por Rio de Janeiro (450) e Minas Gerais (320). O Sul registrou 400 pedidos, com destaque para o Paraná (180). O Nordeste contabilizou 250 pedidos, principalmente na Bahia (80).
O governo federal anunciou medidas de incentivo ao crédito e alongamento de prazos para pagamento de impostos, mas especialistas consideram as ações insuficientes. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que o número de falências pode crescer mais 20% no segundo semestre, caso a Selic permaneça acima de 15%.
Impacto no emprego
O movimento falimentar já resultou na perda de cerca de 150 mil postos de trabalho formais nos primeiros seis meses do ano, segundo dados do Caged. O setor de comércio foi o que mais demitiu, com 60 mil vagas fechadas.
O Ministério do Trabalho informou que está ampliando os programas de qualificação profissional e seguro-desemprego, mas reconhece que a recuperação do mercado de trabalho depende da estabilização econômica.
Perspectivas
Analistas do mercado financeiro projetam que a taxa básica de juros deve começar a cair apenas no último trimestre de 2026, o que pode aliviar a pressão sobre as empresas. No entanto, o índice de confiança dos empresários permanece em baixa, segundo a Fundação Getulio Vargas.
O número de falências deve superar as 5 mil até o fim do ano, superando o recorde de 2016, quando houve 4.800 casos. A expectativa é que a crise atinja também empresas de médio porte, que até então resistiam melhor.



