Lixo têxtil: empresas, governo e academia unem forças para acelerar reúso
Lixo têxtil: empresas, governo e academia unem forças

O Brasil descarta cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Desse total, apenas 30% são reaproveitados. Para acelerar a reutilização de roupas e calçados descartados, empresas, governo e academia lançaram uma iniciativa conjunta que visa transformar o descarte em matéria-prima para novos produtos.

Parceria inédita entre setores

A Aliança para a Economia Circular Têxtil reúne 15 empresas, três ministérios (Meio Ambiente, Desenvolvimento Industrial e Ciência e Tecnologia) e cinco universidades. O objetivo é criar um sistema integrado de coleta, triagem e reciclagem de resíduos têxteis, com meta de aumentar a taxa de reaproveitamento para 50% até 2030.

“Estamos diante de um desafio enorme, mas também de uma oportunidade econômica e ambiental”, afirmou o secretário de Economia Verde do Ministério do Meio Ambiente, Carlos Nobre. “Cada tonelada de roupa reciclada evita a emissão de 3,5 toneladas de CO₂ equivalente.”

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Modelo de negócio circular

A iniciativa prevê a instalação de 50 centros de coleta em capitais e regiões metropolitanas nos próximos dois anos. As roupas e calçados descartados serão separados por tipo de fibra (algodão, poliéster, náilon) e encaminhados para reciclagem mecânica ou química.

Empresas como a Renner, a Malwee e a Vicunha já aderiram ao programa. “Vamos usar o resíduo reciclado como insumo para novas coleções”, explicou a diretora de Sustentabilidade da Renner, Ana Paula Costa. “A meta é que 20% dos nossos produtos contenham material reciclado até 2025.”

Pesquisa e inovação

As universidades participantes — USP, Unicamp, UFRJ, UFSC e UFPE — desenvolverão tecnologias para separar misturas de fibras e melhorar a qualidade do material reciclado. Atualmente, a reciclagem de misturas de algodão e poliéster é um dos maiores gargalos técnicos.

“A inovação está em criar processos que mantenham a resistência e a aparência do tecido reciclado”, disse a coordenadora do laboratório de materiais têxteis da USP, professora Maria Helena de Oliveira. “Já temos resultados promissores com a reciclagem química de poliéster.”

Impacto econômico e social

A expectativa é gerar 5 mil empregos diretos na coleta e triagem, além de fomentar cooperativas de catadores. O investimento inicial é de R$ 200 milhões, com recursos do Fundo Nacional de Meio Ambiente e contrapartida das empresas.

“O lixo têxtil é um problema que afeta especialmente os grandes centros urbanos, onde o descarte inadequado entope bueiros e polui rios”, destacou o presidente da Abit, Fernando Pimentel. “Com essa aliança, mostramos que é possível transformar um passivo ambiental em ativo econômico.”

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