Honda e Sony cancelam Afeela 1 e desmontam estratégia de elétricos nos EUA
Honda e Sony cancelam Afeela 1 e desmontam estratégia de elétricos

A Honda confirmou que encerrará as vendas do Prologue nos Estados Unidos após o término da linha 2026. Primeiro carro elétrico da marca comercializado em grande escala no país, o SUV deixará o mercado depois de apenas três anos. A situação do Prologue piorou depois da retirada dos incentivos federais concedidos a compradores de veículos elétricos nos EUA. No primeiro semestre de 2026, a Honda vendeu 8.407 unidades do SUV, queda de 49% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os carros que ainda estão nos estoques das concessionárias continuarão sendo oferecidos nos próximos meses.

Prologue: um projeto compartilhado com a GM

Lançado como linha 2024, o Prologue não era um projeto integralmente desenvolvido pela Honda. O modelo utilizava a arquitetura elétrica Ultium da General Motors e compartilhava componentes com o Chevrolet Blazer EV. A parceria também deu origem ao Acura ZDX, que teve vida ainda mais curta. A parceria com a General Motors funcionaria como uma ponte até a chegada de uma família de elétricos desenvolvida pela própria Honda. A fabricante preparava uma nova plataforma e pretendia produzir nos Estados Unidos o sedã 0 Saloon, o utilitário 0 SUV e o Acura RSX.

Planos cancelados e prejuízos bilionários

No começo de 2026, os novos modelos ainda eram tratados como peças centrais da estratégia da empresa. Os planos, entretanto, foram cancelados poucos meses depois. Sem os veículos da Série 0 e agora sem o Prologue, a Honda praticamente desmontou sua operação de automóveis elétricos na América do Norte. O recuo também atingiu a Sony Honda Mobility, empresa conjunta criada por Honda e Sony em 2022. A companhia cancelou o desenvolvimento e o lançamento do Afeela 1, que já tinha recebido reservas e seria produzido em Ohio. Um segundo modelo da marca também foi abandonado.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Expectativas frustradas com a Sony

A expectativa era combinar a experiência industrial da Honda com o conhecimento da Sony em eletrônicos, entretenimento, sensores e software. O projeto, porém, ficou sem componentes e tecnologias que seriam compartilhados com os demais elétricos cancelados pela montadora. A Honda havia anunciado em 2021 que deixaria de vender automóveis com motores a combustão até 2040. Os Estados Unidos, responsáveis por cerca de 40% das vendas globais de carros da empresa, tornaram-se o principal destino dos investimentos.

Investimentos que viraram prejuízo

Entre os projetos estavam a transformação de fábricas de Ohio em um polo de produção de elétricos e a construção de uma unidade de baterias em parceria com a sul-coreana LG Energy Solution. A fabricante chegou a comprometer mais de 3 trilhões de ienes (cerca de R$ 94 bilhões em conversão direta) com sua estratégia de eletrificação. Parte dos investimentos foi feita em moldes, equipamentos e instalações destinados a veículos que jamais chegaram às lojas. Em março, a própria Honda estimou que a revisão de sua estratégia poderia provocar perdas de até R$ 86 bilhões ao longo de dois exercícios fiscais.

Primeiro prejuízo anual desde a abertura de capital

O impacto ajudou a levar a Honda ao primeiro prejuízo anual desde que a empresa abriu seu capital, na década de 1950. No exercício encerrado em março de 2026, a montadora registrou perda líquida de 423,9 bilhões de ienes, equivalente a aproximadamente R$ 15 bilhões. O mercado, no entanto, não explica sozinho o fracasso da estratégia. A Honda concentrou investimentos elevados em uma estrutura industrial pouco flexível e demorou para ajustar seus projetos à desaceleração da demanda. Quando mudou de direção, boa parte dos gastos já havia sido realizada.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Elétricos sobrevivem no Japão

O fim do Prologue não representa o abandono completo dos carros elétricos pela Honda. No Japão, a linha inclui o comercial N-VAN e: e o N-ONE e:, modelo de passageiros lançado em 2025. Os dois são destinados principalmente a percursos urbanos e têm proposta bastante diferente da dos SUVs grandes e caros planejados para os Estados Unidos. É uma operação menor, mas que mostra uma abordagem mais pragmática. Em casa, a montadora oferece elétricos compactos, adaptados à infraestrutura e aos hábitos de uso do mercado. Agora, a empresa pretende ampliar a oferta de híbridos e manter motores a combustão por mais tempo. A antiga meta de abandonar completamente essa tecnologia até 2040 também foi deixada de lado. A Honda ainda trata os elétricos como parte de seus planos de longo prazo, mas sem repetir, ao menos por ora, a escala e a rigidez da estratégia que culminou em prejuízos e no cancelamento de inúmeros modelos.