Há 19 anos, Iza Souza deixou seu povoado baiano e se mudou para Trancoso, no sul da Bahia, em busca de uma vida melhor. Sem encontrar vaga como professora, sua formação original, acabou trabalhando como doméstica em casas de veraneio. Sem saber fritar um ovo, aprendeu na prática a cozinhar. Hoje, é professora, antropóloga em formação, escritora e cozinheira, autora do livro digital 'Comida é Cura: Saberes Ancestrais do Sul da Bahia'.
Da necessidade à descoberta da cozinha ancestral
Iza começou fazendo uma cozinha autoral e intuitiva. Quem provava sua comida dizia ser um 'manjar'. Mas esse manjar era diferente: ela buscou aprender com marisqueiros, cozinheiras de rua e mulheres dos quilombos, em vez de se limitar às técnicas europeias. Resgatou a comida que aprendeu em família — metade de aldeia indígena, metade de quilombo. 'Passei a fazer a cozinha dos meus antepassados, que descobri chamar de afro-indígena. Percebi que ela era transmitida integralmente pela oralidade e não possuía registros escritos. Entendi que precisava cozinhar, mas também escrever para que meu povo não desaparecesse', define.
O projeto Manjar Ancestral
Assim nasceu o Manjar Ancestral, primeiro como perfil no Instagram — hoje com cerca de 46 mil seguidores — e depois como projeto de extensão e pesquisa vinculado ao curso de Antropologia da Universidade Federal do Sul da Bahia. Para financiar a continuidade, Iza lançou seu primeiro livro digital. Em 'Saberes Ancestrais', ela apresenta a etapa inicial da pesquisa, com histórias, técnicas e processos de nove pratos da culinária afro-indígena, como o caldo de mandioca com folha de taioba e peixe fresco, a moqueca de piorá salgado com banana-da-terra e biribiri, e o beiju de tapioca preparado na folha de coco.
Crítica às releituras contemporâneas
Iza critica o risco de a culinária ancestral se perder em adaptações e falta de reconhecimento. 'Se você não colocar dendê, ou fizer mudanças no preparo apenas para deixar o prato instagramável, pode chamar de qualquer coisa. Mas não chame de moqueca', alfineta. Ela defende que o conhecimento seja referenciado, valorizado e remunerado. 'Você vai até uma comunidade, aprende com ela, leva aquele conhecimento para um restaurante em São Paulo e apaga sua origem? É assim que esses saberes desaparecem.'
Trajetória e motivação
Em 2018, Iza participou do festival Enchefs Bahia com um prato de fusão africana e indígena: peixe assado na folha de patioba, purê de inhame e mangaba, finalizado com aroeira-salsa. Não foi classificada, mas questionou por que só reproduzia a cozinha do colonizador. Em 2021, venceu o mesmo festival, recebendo o Prêmio Dolmã e o título de Embaixadora da Gastronomia da Bahia. 'Foi então que compreendi que precisava cozinhar e escrever para que meu povo não desaparecesse', diz.
Preservação da cultura alimentar
Iza alerta para o apagamento de saberes: 'O açaí é um bom exemplo. As futuras gerações podem acreditar que ele é apenas um creme congelado cheio de xarope e guaraná. Podem esquecer que foi alimento fundamental para comunidades ribeirinhas.' Ela destaca que a cozinha afro-indígena é terrosa, intensa, cheia de misturas, muitas vezes considerada 'feia' e alvo de tentativas de 'limpeza' e refinamento. 'Isso também é uma forma de apagamento', afirma.
Legado e desafios
Iza recebe uma bolsa de R$ 700 por mês para desenvolver a pesquisa e continua cozinhando para turistas. Seu grande objetivo é ampliar a capacidade de pesquisa e registro. 'Quando penso na minha principal motivação, lembro da minha mãe afro-indígena e da minha neta. Desejo profundamente que minha neta tenha acesso a esse patrimônio cultural alimentar por meio da pesquisa e da prática da avó dela — no caso, eu. Esse é o meu legado', conclui.



