O Bank of America concedeu, nas últimas semanas, uma linha de crédito de US$ 520 milhões à OpenAI, depois de anteriormente rejeitar o pedido da gigante de inteligência artificial, segundo pessoas com conhecimento do assunto.
Mudança de postura do Bank of America
O acordo representa uma mudança relevante na forma como o segundo maior banco dos Estados Unidos e seu presidente-executivo, Brian Moynihan, conhecido por sua aversão a riscos, enxergam startups de IA que ainda dão prejuízo, mas vêm impulsionando os mercados globais. Ainda no ano passado, executivos do banco duvidavam que empresas conhecidas por seu apetite voraz por capital conseguiriam sustentar seus modelos de negócio.
Mas os preparativos da OpenAI para uma oferta pública inicial de ações (IPO) influenciaram a decisão da instituição financeira, disseram as pessoas, que pediram anonimato ao descrever discussões internas. Para um banco conhecido pela “Thundering Herd”, sua rede de assessores de patrimônio da Merrill Lynch, ficar de fora de uma listagem tão grande nos EUA seria visto como um revés.
Linha de crédito se soma a outras
O compromisso do banco se soma a uma linha já existente e ainda não utilizada, estruturada por concorrentes, elevando para mais de US$ 5 bilhões o capital disponível para a OpenAI. A lenta aproximação do Bank of America com a primeira empresa de IA a capturar a atenção global reflete a aversão de Moynihan a apostas corporativas baseadas em fé no futuro — postura que ele vem reforçando em sua equipe de gestão sob o mantra do “crescimento responsável”.
O Bank of America só passou a se sentir confortável em financiar empresas de IA e setores relacionados quando ganhou mais convicção de que o mercado sustentaria seus modelos de negócio, mesmo sem lucratividade, disse uma das pessoas. A equipe de Moynihan também levou em conta a disposição dos investidores de apoiar essas companhias com valuations dissociados de seus lucros, o que aumentou a confiança do banco.
Representantes do Bank of America e da OpenAI se recusaram a comentar.
Histórico de financiamento da OpenAI
A OpenAI recorreu pela primeira vez a um sindicato de nove bancos globais em outubro de 2024, quando estruturou uma linha de crédito de US$ 4 bilhões. Na época, a empresa de IA afirmou que a “parceria com um grupo excepcional de instituições financeiras” lhe daria flexibilidade para investir em novas iniciativas. O Bank of America chamou atenção pela ausência nesse grupo, que incluía todos os seus principais rivais nos EUA, refletindo sua abordagem mais conservadora.
Mais tarde, a instituição começou a entrar no financiamento de outras partes do ecossistema de IA, como a expansão de centros de dados da Oracle em Michigan. Ainda assim, voltou a ficar de fora quando a OpenAI ampliou a linha rotativa para US$ 4,7 bilhões em março, adicionando outros dois bancos. O Bank of America ainda precisava de mais tempo para conduzir a diligência e submeter a decisão de crédito a seus controles internos.
Cicatrizes de antigas batalhas
Moynihan, de 66 anos, assumiu o comando do banco no rastro da crise financeira de 2008 e é amplamente creditado por ter tirado o Bank of America de decisões desastrosas tomadas por seus antecessores. Mas os investidores têm se mostrado menos impressionados nos últimos anos, à medida que ele tenta posicionar a instituição como a aposta mais segura em qualquer futura desaceleração econômica.
Sua filosofia busca evitar grandes perdas, mesmo que isso às vezes signifique abrir mão de oportunidades de maximizar lucros. É uma lição incorporada ao seu estilo de gestão desde os primeiros dias em Wall Street. Há mais de duas décadas, quando ainda era um executivo em ascensão no FleetBoston, viu seu banco sofrer grandes perdas na Argentina.
Em 2017, quando empresas de Wall Street sofreram perdas em empréstimos com margem ligados ao colapso da varejista sul-africana Steinhoff, a maioria tratou o episódio como algo pontual. Mas, sob Moynihan, o Bank of America reduziu esse tipo de operação justamente quando o financiamento a clientes passava a se tornar uma importante fonte de receita para seus concorrentes.
Alguns anos depois, o banco tomou uma decisão custosa ao alocar centenas de bilhões de dólares em títulos de longo prazo e baixo rendimento durante o período de juros muito baixos na pandemia. Embora hoje diga que está substituindo ativamente esses papéis por outros ativos mais rentáveis, o erro corroeu os lucros por anos e limitou a capacidade do banco de agir de forma mais agressiva.
O resultado: apesar de ter atingido um novo pico nesta semana, a ação do Bank of America teve desempenho significativamente pior do que o de todos os seus pares nos últimos cinco anos. E gerentes de nível médio, em conversas privadas, reclamaram das oportunidades perdidas porque não puderam assumir certos riscos.
O timing do IPO
Gigantes em ascensão do Vale do Silício passaram a esperar que os bancos as apoiem com linhas de crédito à medida que escalam suas operações e se preparam para estreias na Bolsa. Banqueiros de mercado de capitais que disputam papéis em IPOs de destaque muitas vezes contam com o apoio de seus chefes para oferecer esses empréstimos, ajudando suas franquias a competir por mandatos — ainda que essas trocas não sejam explicitamente formalizadas.
No caso da OpenAI, a criadora do ChatGPT trabalhou com Goldman Sachs e Morgan Stanley quando apresentou, de forma confidencial, um registro regulatório para um possível IPO, além de ter discutido com outros bancos sua inclusão no grupo de assessores da listagem.
A empresa de IA, liderada por Sam Altman, vem avaliando o quão cedo deve abrir capital e pode esperar até o próximo ano, possivelmente seguindo a rival Anthropic PBC. As duas companhias inicialmente corriam para estrear em Wall Street já neste ano, a fim de garantir capital novo e bancar seus gastos pesados — mas rodadas privadas de captação e linhas de crédito lhes deram mais margem de manobra.
A OpenAI já levantou capital neste ano com um valuation impressionante de US$ 852 bilhões, demonstrando a disposição dos investidores em continuar financiando a corrida sem economia de custos para dominar o setor de IA.
E, quando a empresa revelou que havia protocolado confidencialmente sua papelada para um IPO, fez também um alerta. “Ainda não decidimos o timing; isso pode demorar, porque há coisas que queremos fazer e que provavelmente são mais fáceis como empresa privada”, disse a OpenAI. “Há um conjunto complexo de trade-offs, e isso nos dá a opção de abrir capital mais cedo, se isso acabar sendo o melhor caminho.”



