O Brasil planeja captar cerca de 10 bilhões de yuans (US$ 1,48 bilhão) com uma emissão inaugural de títulos panda bonds ainda em 2026, conforme anunciou o Secretário do Tesouro, Daniel Leal. A operação, inédita para uma nação latino-americana, integra os esforços do governo para diversificar os empréstimos do país, reduzir a dependência do dólar americano e estreitar os laços financeiros com Pequim, alinhando-se à política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Referência para empresas brasileiras
As autoridades esperam que a estreia do governo sirva de referência para empresas brasileiras, abrindo caminho para uma nova fonte de financiamento. Para exportadores com receitas atreladas à China, como Vale, WEG, JBS e Embraer, a estratégia pode fazer sentido. No entanto, a adoção não será imediata. "É um mercado mais específico para empresas que têm uma presença relevante na China e podem se beneficiar da diversificação de sua base de investidores", afirmou Rafael Basso, gestor de portfólio de crédito da AZ Quest. "A China vem tentando se abrir mais para emissores estrangeiros, tentando trazer o máximo de empresas possível para criar um mercado mais robusto, mas isso está acontecendo aos poucos."
Contexto da aproximação com a China
A iniciativa se insere na investida de Lula para ampliar as opções de financiamento do Brasil para além do dólar, sem abandoná-lo completamente. O Ministério da Fazenda vê espaço para aumentar a fatia da dívida atrelada a moedas estrangeiras, atualmente em 4% do total. Ainda em 2026, o Brasil emitiu € 5 bilhões (US$ 5,7 bilhões) em títulos, a maior captação externa da história e a primeira oferta em euros em mais de uma década.
Para as empresas, o uso mais amplo de moedas estrangeiras, somado às relações comerciais existentes, pode expandir as opções de financiamento. A Eldorado Brasil Celulose, controlada pelos irmãos Batista, exemplificou essa tendência em 2023 ao concluir uma exportação liquidada em yuans e reais, sem dólar americano. A transação refletiu os profundos laços comerciais com a China.
Crescimento do mercado de panda bonds
A China tem trabalhado para desenvolver seu mercado doméstico de dívida. Em junho, o Banco Central chinês afirmou que as portas estão abertas para tomadores brasileiros. As vendas de panda bonds dispararam para o recorde de 173 bilhões de yuans no acumulado de 2026, um salto de cerca de 70% em relação ao mesmo período de 2025, elevando o total emitido para mais de 1 trilhão de yuans, segundo dados da Bloomberg. Embora subsidiárias de empresas chinesas no exterior continuem sendo as principais emissoras, tomadores estrangeiros responderam pelo recorde de 36 operações em 2025, contra apenas seis em 2015.
Os emissores corporativos estrangeiros precificaram panda bonds com cupom médio de 1,97% em 2026, mínima histórica, ainda com prêmio sobre a dívida corporativa doméstica chinesa de três anos com classificação máxima, tornando-os atraentes para investidores como bancos comerciais.
Obstáculos e desafios
Apesar do potencial, existem barreiras. Emissores estreantes enfrentam burocracia que pode levar de cinco a seis meses. O tamanho típico das operações tende a ser pequeno, com vencimentos mais curtos e investidores que priorizam nomes com notas de crédito altas. "Navegar pelas complexas exigências regulatórias da China não é fácil, e o mercado de panda bonds ainda continua sendo relativamente pequeno", disse Lynn Song, economista-chefe para a Grande China no ING Bank NV.
Em 2024, a Suzano tornou-se a primeira empresa da América Latina a emitir um panda bond. Dois anos depois, ela continua sendo a única emissora da região nesse mercado. "Foi uma estratégia para testar um novo mercado e ajudar a desenvolvê-lo", disse Marcos Assumpção, diretor financeiro da companhia. "Poderíamos fazer isso de novo." A Suzano trocou os recursos captados por dólares americanos para alinhar o caixa à sua receita. Mesmo após o swap, o custo total foi menor do que teria sido no mercado de dívida dos EUA.
Catalisador para emissores de qualidade
O status solitário da Suzano evidencia que a dívida em panda bonds ainda é limitada. Assumpção reconheceu que o mercado é menor e a base de investidores mais concentrada. Empresas brasileiras com notas de crédito mais baixas podem ter dificuldades, diante da preferência dos investidores chineses por qualidade. "Se você quer sair do dólar, precisa ter grau de investimento e algum tipo de perfil de crédito para atrair esses investidores específicos, que hoje não estão na sua curva em dólar", disse Ricardo Navarro, diretor executivo no Itaú BBA. "E você só faz isso se estiver exportando para aquele mercado."
Apesar dos desafios, os esforços do Brasil podem pavimentar o caminho para uma investida corporativa, especialmente entre emissores de melhor qualidade de crédito. "Se a emissão soberana for bem-sucedida, com forte demanda, precificação justa e spreads apertados, é muito provável que sirva como um catalisador", afirmou Basso.



