A guerra entre a Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares) e a fabricante chinesa Shineray ganhou um novo capítulo. Testes realizados por um laboratório independente, a pedido da Abraciclo, indicaram que os modelos SHI 175 EFI, SHI 150 e XY125 Rio EFI da Shineray apresentaram emissões de poluentes muito acima dos limites estabelecidos pela legislação brasileira. Segundo a entidade, 63 dos 64 parâmetros analisados ficaram fora dos padrões, com alguns resultados apontando emissões de até 30 vezes acima do permitido.
Entenda o caso
O Brasil possui regras rigorosas para controle da poluição veicular. O Programa de Controle da Poluição do Ar por Ciclomotores, Motociclos e Similares (Promot) estabelece limites máximos para a emissão de gases poluentes e de ruído por motocicletas, ciclomotores e veículos similares novos. Além de definir esses limites, o programa exige que as fabricantes desenvolvam tecnologias capazes de reduzir gradualmente as emissões, por meio de diferentes fases de implementação, como a atual Promot M5.
Antes de um veículo ser comercializado no Brasil, ele precisa passar por um processo de homologação ambiental. Nessa etapa, são realizados ensaios para verificar se as emissões de gases e os níveis de ruído estão dentro dos limites definidos pelo Promot. Os testes medem substâncias como monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (NOx), poluentes que podem causar impactos à saúde e ao meio ambiente quando emitidos acima dos limites legais.
Investigação começou em 2025
A investigação teve início no fim de 2025, quando a Abraciclo apresentou uma representação à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). A entidade afirmou que seus testes em motocicletas da Shineray apresentavam emissões superiores às permitidas e alegou ainda a ausência de componentes do sistema de controle de emissões em alguns modelos, como catalisador e cânister.
Desde o início, a principal linha de defesa da Shineray foi questionar a imparcialidade dos primeiros ensaios. A empresa argumentou que eles haviam sido realizados em laboratórios ligados a fabricantes associadas à Abraciclo, o que poderia comprometer os resultados, além de questionar também a metodologia e a forma de realização dos testes.
Novos testes independentes
Para responder a esse questionamento, a associação contratou a Marelli, empresa independente, para repetir todos os testes. As motocicletas foram compradas em concessionárias, submetidas a controle de cadeia de custódia e avaliadas novamente. Segundo a Abraciclo, os resultados foram praticamente os mesmos obtidos nos primeiros ensaios, apontando emissões superiores ao permitido. Em alguns casos, até 30 vezes acima do limite legal.
Procurada pela reportagem para se posicionar sobre o caso, a associação apenas informou que todas as informações sobre a metodologia, resultados e intenção da empresa com a denúncia podem ser consultados nos laudos públicos disponíveis.
O que diz a Shineray
Questionada sobre como explicaria a diferença dos resultados apresentados na homologação e os obtidos pela Abraciclo e se haveria uma contraprova, a empresa enviou o seguinte comunicado: “A Shineray já apresentou todos os esclarecimentos e respondeu às alegações nos canais competentes. Neste momento, nosso foco está integralmente em nossos consumidores, parceiros e no público para apresentarmos nossos produtos e inovações.”
Próximos passos
O processo continua em análise na Senacon, que ainda não tomou uma decisão sobre o mérito da denúncia. Com a apresentação dos novos testes, a Abraciclo voltou a pedir a abertura de um processo administrativo sancionador. Entre as medidas solicitadas estão a realização de recall dos modelos investigados, a suspensão da comercialização das motocicletas apontadas como irregulares, a aplicação de multas e o encaminhamento do caso a outros órgãos, como Ibama, Inmetro e Cade.
Até que haja uma decisão das autoridades competentes, não há determinação para retirada dos modelos do mercado nem reconhecimento oficial de que a Shineray tenha cometido irregularidades. O processo segue em andamento e ainda poderá receber novas manifestações e provas antes de uma conclusão.



