Bradesco anuncia aumento de capital de R$ 10 bi e ações caem
Bradesco anuncia aumento de capital de R$ 10 bi e ações caem

O anúncio de um aumento de capital de até R$ 10 bilhões pelo Bradesco (BBDC4) pegou o mercado de surpresa e provocou uma reação negativa das ações. Às 12h03 desta quinta-feira (30), as ações BBDC3 caíram 1,93% (R$ 15,73), enquanto BBDC4 registrou baixa de 1,31% (R$ 18,11). A operação levantou dúvidas sobre a necessidade de o banco buscar recursos adicionais poucos meses após a reestruturação da Bradesco Saúde, que já havia reforçado seus índices de capital. No entanto, a leitura predominante entre analistas tem sido mais construtiva: o movimento pode representar um passo importante para fortalecer a estrutura financeira do banco e acelerar sua recuperação de longo prazo.

Detalhes da operação e reação do mercado

A operação prevê a emissão de até R$ 10 bilhões em novas ações, com os acionistas controladores comprometidos a subscrever até R$ 8 bilhões, garantindo na prática a execução do aumento de capital. Ao mesmo tempo, o banco antecipará o pagamento de R$ 6,5 bilhões em juros sobre capital próprio (JCP), permitindo que os acionistas utilizem esses recursos para participar da oferta.

Para o Citi, existem três possíveis interpretações para a iniciativa. A primeira, e mais positiva, é que o Bradesco esteja aproveitando uma janela favorável de mercado para reforçar sua flexibilidade financeira e acelerar investimentos em tecnologia, eficiência comercial e expansão dos negócios. Nessa visão, o banco estaria atuando a partir de uma posição de força, e não por necessidade imediata de capital.

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Hipóteses dos analistas: estratégia ou necessidade?

Uma segunda leitura, mais cautelosa, considera que a administração pode estar aproveitando a atual receptividade dos investidores para reforçar seu balanço antes de um ambiente potencialmente mais desafiador para a qualidade dos ativos e para o crédito. Já a terceira hipótese aponta para um benefício menos evidente, mas relevante: acelerar a utilização dos créditos tributários diferidos (DTAs), um dos principais desafios estruturais do banco atualmente.

Essa última tese também é destacada pelo JPMorgan, com o aumento de capital elevando o patrimônio tangível do Bradesco, permitindo maior crescimento de ativos ponderados pelo risco e, consequentemente, maior geração de lucro tributável. Isso ajudaria a consumir mais rapidamente o elevado estoque de créditos tributários acumulados pelo banco, estimado em cerca de R$ 120 bilhões. Na avaliação do JPMorgan, a operação cria um ciclo potencialmente virtuoso de fortalecimento do patrimônio tangível, aumento da rentabilidade e aceleração da utilização dos DTAs.

BTG Pactual vê fortalecimento do patrimônio tangível

O BTG Pactual segue linha semelhante. Para a equipe liderada por Carlos Macedo, a medida tem como principal objetivo fortalecer o patrimônio tangível, considerado um componente central da estratégia de recuperação do banco. Apesar de reconhecer que o mercado pode inicialmente interpretar a oferta como evidência de necessidade de capital, o BTG avalia que a decisão era necessária para melhorar a qualidade do balanço e sustentar a expansão futura da rentabilidade.

Segundo estimativas do BTG, o patrimônio efetivamente tangível do Bradesco representa atualmente apenas cerca de R$ 28 bilhões, ou aproximadamente 16% do patrimônio contábil total. O aumento de capital ajudaria justamente a elevar essa parcela, considerada crucial para melhorar o retorno sobre o patrimônio (ROE) ao longo do tempo.

Impacto nos indicadores regulatórios

O reforço também terá impacto direto nos indicadores regulatórios. De acordo com o banco, a operação deve acrescentar cerca de 90 pontos-base ao índice de capital principal (CET1), elevando o indicador pro forma para aproximadamente 13,6%. O Citi destaca que o reforço amplia a capacidade do banco de investir e crescer, enquanto o BTG avalia que, somado aos efeitos da reestruturação da Bradesco Saúde, o movimento praticamente elimina preocupações sobre restrições de capital no curto prazo.

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Nem todos, porém, veem apenas aspectos positivos. O Goldman Sachs classificou o anúncio como inesperado, justamente porque o Bradesco já havia reforçado seu capital recentemente. Para os analistas da casa, a operação pode reacender questionamentos sobre a capacidade de geração orgânica de capital do banco e sobre a velocidade de absorção dos créditos tributários. Além disso, os acionistas que não participarem da oferta poderão sofrer diluição de até cerca de 3,4%, segundo cálculos do banco.

Sinal de confiança dos controladores

Ainda assim, o consenso entre as casas parece indicar que a transação deve ser analisada mais sob a ótica estratégica do que como uma resposta a problemas imediatos de solvência. A forte adesão dos controladores, que se comprometeram a aportar até R$ 8 bilhões próprios, foi interpretada pelo BTG como um sinal de confiança na recuperação do banco e no potencial de geração de valor da instituição nos próximos anos.

A avaliação no geral é de que o aumento de capital pode ajudar o Bradesco a resolver uma das principais questões que pesam sobre sua tese de investimento: a necessidade de fortalecer seu patrimônio tangível e acelerar a monetização dos créditos tributários. Se essa estratégia se mostrar bem-sucedida, o movimento que inicialmente incomodou o mercado poderá ser visto, no futuro, como mais um capítulo do processo de transformação do banco.