Tarifaço de Trump: impacto de 36,5% no agronegócio brasileiro
Tarifaço de Trump: 36,5% de impacto no agronegócio

A partir da próxima terça-feira (22), entra em vigor a sobretaxa de 25% aplicada pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros que ficaram fora da lista de exceções anunciada por Washington. Além da tarifa já confirmada, o setor acompanha a possibilidade de uma cobrança adicional de 12,5%, em outra investigação comercial em andamento. Se a medida for implementada, a sobretaxa total poderá chegar a 37,5% sobre os produtos brasileiros afetados. Entre os segmentos do agronegócio atingidos estão as cadeias de uva, ovos, madeira, arroz e açúcar.

Impacto de 36,5% nas exportações do agronegócio

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a medida coloca sob pressão US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro. Cerca de 36,5% das exportações do setor para os EUA ficarão sujeitas à tarifa adicional de 25%, enquanto 63,5% foram preservadas com a ampliação da lista de exceções.

Produtor de uva já redireciona vendas

O produtor Rodrigo Pamponet, que cultiva uvas no Vale do São Francisco, já colocou o mercado norte-americano em segundo plano. A fazenda passou a concentrar as vendas em outros mercados, como Europa e Argentina, diante da perda de competitividade provocada pelas tarifas. “A gente costumava exportar bastante para os EUA. Em 2024, a fazenda embarcou cerca de 50 paletes. No ano passado, esse volume caiu para apenas seis, apenas para completar um pedido. Neste ano, a expectativa é de que minhas exportações para lá praticamente zerem, a menos que os importadores americanos aceitem absorver parte do custo adicional das tarifas”, relata o produtor.

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Atualmente, cerca de 70% da produção exportada pela fazenda segue para a União Europeia e 28% para a Argentina. O mercado argentino ganhou espaço devido à proximidade geográfica e ao menor custo de transporte. O volume de uvas brasileiras enviado ao país passou de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025. Enquanto isso, as compras dos EUA recuaram: o país adquiriu 13,8 mil toneladas de uva brasileira em 2024, com faturamento de US$ 41,5 milhões, reduzindo para 4,1 mil toneladas em 2025, equivalente a US$ 12,8 milhões.

Vale do São Francisco concentra produção

Principal polo da fruticultura irrigada do país, o Vale do São Francisco concentra cerca de 75% da produção nacional de uvas e responde por aproximadamente 95% das exportações brasileiras da fruta. A cultura tem papel estratégico na economia regional e é uma das principais fontes de receita com exportações. Embora a Europa continue como principal destino, o mercado dos EUA é considerado estratégico devido à remuneração. Segundo o pesquisador João Ricardo Lima, da Embrapa Semiárido, os compradores americanos pagam mais por frutas de maior qualidade. “O mercado americano é importante em termos de preço. Essas uvas pagam muito bem nos Estados Unidos, mais do que na Europa. Então, quando se perde esse mercado, o efeito para o produtor é maior”, afirma.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), Jailson Lira, afirma que a abertura de novos mercados reduziu parte do impacto, mas não eliminou a preocupação do setor. Segundo ele, o momento ainda é de "muita tensão" entre os produtores. Uma das principais preocupações envolve emprego e renda na região. A cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no Vale do São Francisco, e aproximadamente metade da mão de obra é formada por mulheres. Apesar das incertezas, o setor mantém a expectativa de uma solução negociada antes de setembro, quando começa a principal janela de embarque de frutas para os EUA.

Outros setores afetados

Além da fruticultura, a lista de produtos atingidos inclui arroz, madeira e açúcar. A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) informou que participou de audiências públicas em Washington para defender que o arroz brasileiro tem papel complementar no abastecimento dos EUA, já que a produção local não seria suficiente para atender toda a demanda. Os EUA não estão entre os principais destinos do cereal brasileiro, que tem como mercados mais relevantes Venezuela, México e Senegal. A entidade avalia que a medida pode aumentar o custo do alimento para os consumidores americanos, caso a tarifa seja repassada aos preços finais.

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Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), afirmou que a tarifa sobre ovos e carne suína preocupa o setor, mas destacou que o impacto prático varia. No caso dos ovos, a nova tarifa tem efeito limitado porque o Brasil já havia reduzido significativamente as exportações para os EUA após a normalização da crise sanitária provocada pela gripe aviária. No ano passado, o Brasil bateu recorde de vendas aos americanos justamente porque o país enfrentava redução da oferta interna. Cerca de 1% da produção nacional de ovos é exportada, em média. Na carne suína, os embarques caíram de cerca de 60 mil toneladas para uma média anual próxima de 3 mil toneladas devido a barreiras comerciais. Hoje, os EUA sequer estão entre os 10 principais destinos das exportações brasileiras do produto. Por outro lado, a ABPA considerou positiva a decisão de manter a tilápia fora da lista de produtos sobretaxados.

Plano do governo e diversificação

Para apoiar as empresas afetadas, o governo federal anunciou a retomada de medidas voltadas aos setores prejudicados, mas ainda não detalhou como funcionarão. A iniciativa prevê linhas de crédito para capital de giro, financiamento de investimentos e ações para ajudar exportadores a redirecionar produtos para outros mercados. A ApexBrasil prepara um plano de contingência para agosto, com investimento de R$ 130 milhões em ações de diversificação comercial. A estratégia prevê ampliar a presença de produtos brasileiros em mercados da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, além de fortalecer as vendas para o Oriente Médio. O governo também pretende aproveitar as oportunidades abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia para ampliar os destinos das exportações e reduzir a dependência do mercado americano.