O Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras (Simespi) manifestou preocupação com a tarifa extra de 25% que os Estados Unidos aplicarão sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho. A medida, anunciada na quarta-feira (15) pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), deve impactar a economia da região de Piracicaba (SP), atingindo itens estratégicos como etanol e máquinas agrícolas.
Impacto na economia regional
A região de Piracicaba é um dos principais polos do país na produção de máquinas, equipamentos, componentes e bens de capital, além de se destacar na cadeia sucroenergética. Segundo Paulo Estevam Camargo, presidente do Simespi, o impacto deve atingir tanto as empresas exportadoras quanto as que fornecem para o setor sucroenergético, podendo comprometer postos de trabalho, a arrecadação dos municípios e do estado, e o desenvolvimento regional. "Nossa região concentra empresas altamente especializadas no atendimento às usinas de açúcar e etanol. Qualquer redução na competitividade do etanol brasileiro ou retração dos investimentos nesse segmento acaba refletindo diretamente sobre a indústria metalmecânica, que fornece tecnologia, equipamentos e soluções para toda essa cadeia produtiva", observa Camargo.
Setor metalmecânico vulnerável
Carlos Vian, professor e pesquisador do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), afirmou que o setor metalmecânico de Piracicaba e cidades vizinhas surge como um dos mais vulneráveis, arriscando sofrer com a desindustrialização e a perda de postos de trabalho nos próximos meses. "O mercado americano é um destino importante das nossas exportações de produtos. Na economia regional, temos multinacionais americanas que produzem e exportam para as matrizes; isso pode ter um impacto, uma reorganização dessas cadeias para essas empresas. Às vezes, ao invés de lutar para não ter a tarifa, é mais fácil realocar a empresa para outras regiões do mundo onde existam filiais e que não tenham esse tipo de processo", explica Vian.
Itens excluídos e reação do governo
A nova tarifa deixou de fora itens importantes da exportação brasileira, como petróleo, café, carne bovina, aeronaves e celulose. Na noite de quinta-feira, o governo brasileiro afirmou que o tarifaço atinge 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos e anunciou que vai criar um programa de apoio às empresas afetadas, podendo adotar a Lei da Reciprocidade. A medida americana é resultado de uma investigação de um ano, na qual os EUA acusam o Brasil de adotar práticas que "oneram ou restringem" o comércio, citando o sistema de pagamentos Pix, temas ligados às plataformas digitais e a dificuldade de entrada do etanol americano no mercado brasileiro. O governo brasileiro nega as acusações e, segundo interlocutores ouvidos pelo blog do Valdo Cruz, considera os temas inegociáveis e a decisão estritamente política.
Riscos políticos e defesa do diálogo
Vian teme que a nova taxação seja explorada como ferramenta política em períodos eleitorais, desviando o foco das necessárias negociações técnicas. "Houve uma tentativa de diálogo que aparentemente não foi bem sucedida, mas esperava-se que houvesse uma tentativa de negociação mais ampla. Um aspecto perigoso é a possibilidade de que isso seja usado como conteúdo em um ambiente político, porque pode virar um argumento para a campanha eleitoral", afirma Vian. O Simespi defendeu cautela e diálogo, sendo contra medidas de reciprocidade comercial. "A escalada de medidas retaliatórias tende a aumentar a insegurança nas relações comerciais, elevar custos e dificultar ainda mais o ambiente de negócios. O Brasil deve priorizar a negociação técnica", avalia o presidente do Simespi, Paulo Estevam Camargo.



