Um estudo premiado acende um alerta para o adoecimento silencioso de trabalhadores rurais em assentamentos do Pontal do Paranapanema. A pesquisa, desenvolvida pelo médico do trabalho Wilson José Constante Júnior, de Teodoro Sampaio (SP), conquistou o primeiro lugar entre os trabalhos científicos apresentados no Congresso Paulista de Medicina do Trabalho, realizado em São Paulo. O estudo intitulado "Perfil epidemiológico e fatores ocupacionais em assentamento rural no Pontal do Paranapanema" analisou a realidade dos trabalhadores do Assentamento Água Sumida, em Teodoro Sampaio, buscando compreender como as condições de trabalho e de vida influenciam a saúde dessa população.
Principais desafios identificados
O envelhecimento da população rural, a alta incidência de doenças crônicas e a exposição a fatores de risco presentes no trabalho no campo estão entre os principais desafios enfrentados pelos trabalhadores dos assentamentos rurais da região. Segundo o pesquisador, a premiação chamou atenção para um grupo que ainda aparece pouco nas discussões sobre saúde ocupacional. "Quando se fala em Medicina do Trabalho, muitas pessoas pensam logo nas empresas urbanas, indústrias, escritórios e grandes centros. Mas o trabalhador rural também adoece pelo trabalho, também enfrenta riscos ocupacionais e precisa ser incluído nas estratégias de prevenção e cuidado", afirmou.
Resultados da pesquisa
Entre os resultados que mais chamaram a atenção está o envelhecimento da população estudada. No Assentamento Água Sumida, 38,7% dos moradores atendidos tinham mais de 60 anos. O dado está relacionado a um processo histórico observado no Pontal do Paranapanema, onde muitos jovens deixam o campo em busca de oportunidades de estudo e trabalho, enquanto os moradores mais velhos permanecem nos lotes. O estudo também identificou índices elevados de doenças crônicas: a hipertensão arterial foi encontrada em 34,1% da população analisada, enquanto o diabetes mellitus apareceu em 14,3% dos casos. "Isso evidencia que o desafio vai além dos acidentes de trabalho imediatos, envolvendo também um adoecimento crônico, silencioso e progressivo", explicou Wilson.
Riscos ocupacionais frequentes
Além das doenças crônicas, a pesquisa apontou riscos ocupacionais frequentes no cotidiano dos trabalhadores rurais, como:
- Exposição prolongada ao sol e ao calor;
- Esforço físico intenso;
- Levantamento de peso;
- Contato com produtos químicos e agrotóxicos;
- Dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
Maior concentração de assentamentos do estado
Segundo dados citados pelo pesquisador, a região possui 117 assentamentos rurais, a maior concentração do Estado de São Paulo. Os municípios com maior número de áreas de reforma agrária são Mirante do Paranapanema, com 36 assentamentos, Teodoro Sampaio, com 21, e Euclides da Cunha Paulista, com nove. O Assentamento Água Sumida, foco do estudo, é o maior de Teodoro Sampaio, com 121 lotes distribuídos em uma área de 4.210 hectares. "Estudar essa população é também reconhecer a importância dela para a história e para o futuro da região", destacou.
Contribuição para políticas públicas
Segundo o médico, os resultados podem servir de base para políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador rural. Entre as possibilidades estão campanhas de prevenção sobre exposição solar, calor excessivo, uso seguro de produtos químicos, ergonomia no trabalho rural e acompanhamento de doenças como hipertensão e diabetes. O estudo também pode auxiliar no planejamento de ações da atenção básica, visitas domiciliares, educação em saúde e capacitação de equipes que atuam em assentamentos. "Muitas vezes, a política pública precisa começar com uma pergunta simples: quem são essas pessoas e do que elas estão adoecendo? A pesquisa ajuda justamente a responder isso", afirmou.
Reconhecimento científico
Para Wilson, o prêmio conquistado em um dos principais congressos de Medicina do Trabalho do Brasil representa mais do que uma conquista profissional. "Ver um trabalho sobre trabalhadores rurais assentados do Pontal do Paranapanema receber o primeiro lugar entre as apresentações científicas mostra que a realidade do interior também tem relevância científica. Muitas vezes, temas de regiões mais afastadas dos grandes centros não ganham a visibilidade que merecem", disse. Por fim, segundo ele, a premiação ajuda a levar a realidade dos assentamentos para espaços de discussão científica e reforça a necessidade de ampliar o olhar sobre a saúde dos trabalhadores rurais. "Esse prêmio ajuda a mostrar que os trabalhadores rurais assentados do Pontal do Paranapanema existem, trabalham, produzem, adoecem e precisam ser vistos pelas políticas públicas, pela ciência e pela sociedade", concluiu.



