Dupla poda revoluciona vitivinicultura e gera vinhos premiados em MG e SP
Dupla poda revoluciona vinhos de inverno em MG e SP

Mais de 30 anos atrás, produzir vinhos finos no Sudeste do Brasil parecia uma missão improvável. Hoje, a realidade é bem diferente: rótulos produzidos em Minas Gerais e no interior de São Paulo conquistam premiações internacionais e impulsionam um mercado em expansão. Por trás dessa transformação está a técnica da dupla poda, desenvolvida em Minas Gerais e responsável por inverter o ciclo das videiras para que as uvas sejam colhidas durante o inverno.

A revolução da dupla poda

A técnica foi criada pelo engenheiro agrônomo e empresário Murilo de Albuquerque Regina, considerado o pai da dupla poda. Em 1998, quando era pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), ele desenvolveu um método para alterar o ciclo produtivo das videiras. "Onde se faz vinho fino em toda a região do mundo, tem o clima do período de maturação e colheita exatamente igual ao clima da minha terra. Eu tive essa ideia. Nós precisamos mudar o ciclo da uva e colocar a uva para amadurecer entre maio e agosto e não entre dezembro e fevereiro, que é a época chuvosa", explicou Murilo.

Segundo ele, as videiras cultivadas no Brasil tiveram origem em material genético trazido de outros países e se adaptaram ao território brasileiro ao longo do tempo. "O Brasil não é uma região que tem videiras na sua origem. Todas as videiras cultivadas aqui vieram de fora e foram se adaptando mais por uma questão cultural. O Brasil começou a fazer vinho no Sudeste brasileiro, em São Paulo, Minas Gerais e no Rio Grande do Sul", disse.

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Primeiros testes e expansão

Os primeiros testes da dupla poda foram realizados no início dos anos 2000, em uma propriedade de Três Corações, no Sul de Minas. Em 2003, ocorreu a primeira colheita com resultados considerados excelentes. As uvas apresentaram tamanho reduzido, maior concentração de açúcar e de taninos, características importantes para a produção de vinhos de qualidade. "A gente conseguiu inverter o ciclo da planta e fazer vinho de qualidade", relembrou Murilo.

A partir de 2009, o cultivo comercial se expandiu rapidamente para diferentes regiões de Minas Gerais e também para São Paulo, Rio de Janeiro, além de áreas do Centro-Oeste e do Nordeste. Atualmente, mais de 500 hectares de videiras utilizam a técnica da dupla poda, segundo a Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno.

Qualidade superior e reconhecimento

A história da consolidação dos vinhos de inverno também passa pelo trabalho da enóloga e viticultora Isabela Peregrino, parceira de estudos de Murilo Regina e responsável pelo desenvolvimento dos processos de elaboração dos vinhos e espumantes produzidos com a técnica. "Você faz um vinho ruim com uma uva boa, se você não tiver controle do processo. Mas você não faz um vinho bom com uva ruim. O ponto principal é que a uva seja boa", afirmou.

Ela destaca que a dupla poda permite reunir condições fundamentais para a produção de uvas de qualidade. "Os três pilares de produção de uva de qualidade para vinho são tempo seco, dias ensolarados e noites frias. Esses três pilares são fundamentais para que a uva tenha qualidade", explicou.

Em uma loja de vinhos em Poços de Caldas, no Sul de Minas, são vendidos mais de 1.200 rótulos de todos os continentes. Destes, 60 são vinhos de inverno produzidos na região e também em cidades do interior paulista. Segundo vendedores, a procura por essas bebidas tem aumentado nos últimos anos, impulsionada principalmente pelo reconhecimento conquistado em concursos nacionais e internacionais.

Diversificação nas fazendas

Foi apostando nesse potencial que a família de Luiz Porto Júnior decidiu diversificar a produção rural em Cordislândia, no Sul de Minas. Após uma geada atingir os cafezais da propriedade no início dos anos 2000, a família investiu na viticultura. "Santa geada que acabou com os cafezais do meu pai. Ela pôde trazer uma vontade de diversificar e descobrimos nessa fruticultura uma maneira de trazer mais valor agregado e mais cultura para essa mineiridade que existe aqui no nosso estado", contou.

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Em 2004, foram plantadas 45 mil mudas de sete variedades diferentes já utilizando a técnica da dupla poda. A colheita exige cuidado e atenção. Os cachos são retirados manualmente com tesouras especiais para evitar danos à fruta. "O problema é a ferramenta que a gente trabalha, que é muito afiada, e os cachos ficam muito próximos. Tem que ter muita atenção para cortar devagarzinho e colocar dentro da caixa devagarzinho", explicou o encarregado da fazenda, Márcio Dias.

Em Passos, também no Sul de Minas, a aposta na viticultura começou mais recentemente. Em uma fazenda onde a produção de café divide espaço com as videiras, o cultivo das uvas foi implantado em 2019 para substituir áreas antes ocupadas por eucaliptos. "Com os estudos e tudo pronto na mão, nós demos início ao projeto, obviamente com consultoria e respaldo de informações necessárias para ter o cultivo da uva na nossa região", afirmou o gerente da fazenda, Eduardo Henrique Teixeira Rosa. Segundo ele, os ciclos produtivos da uva de inverno e do café são semelhantes, permitindo que as duas culturas convivam na mesma propriedade.

Premiações e futuro promissor

Vinhos produzidos com a técnica da dupla poda vêm acumulando premiações em concursos internacionais. "Esse ano nós tivemos mais três vinhos premiados e um deles atingiu 92 pontos. Isso para nós diz o seguinte: estamos no caminho certo. Continuemos assim. Só melhoraremos e quem sabe um dia chegar a 100 pontos", comemorou o gerente comercial e sommelier Sérgio Casadei.

A série especial "Cartas de Vinho", exibida durante esta semana pela EPTV Sul de Minas, afiliada Rede Globo, mostra como o legado dos imigrantes que trouxeram as primeiras mudas de uva influencia a vitivinicultura atual. A produção destaca a revolução da dupla poda e como o pioneirismo dos produtores ajudou a consolidar Minas Gerais e São Paulo como importantes polos do vinho e do enoturismo.