No sul de Minas Gerais, a cada dez entregas de uma distribuidora de bebidas em Varginha, cinco são de vinho. O movimento acompanha uma tendência nacional: o consumo da bebida atingiu um novo recorde no Brasil, ultrapassando 2,5 litros por pessoa no último ano, com crescimento superior a 40% em relação a 2024.
Distribuidora de Varginha reflete aumento da demanda
A distribuidora, que atende toda a cidade e também a zona rural, vende cerca de 800 garrafas por mês. O sócio-proprietário Jordane Soares Ramos conta que o vinho ganhou espaço gradativamente. "Quando a gente começou com a loja era 100% cerveja. Aí com o passar do tempo que a gente foi vendo que o mercado de vinho, a procura dos clientes por vinho era bacana, a gente foi onde a gente aumentou o nosso leque, por isso a gente começou a trazer os vinhos", disse. Hoje, os clientes encontram rótulos nacionais e importados do Chile, Argentina, Itália, Espanha, Uruguai e França.
Empreendedorismo no setor: de um apartamento a duas lojas
Em Campinas (SP), o empresário César Moya viu no vinho uma oportunidade após a aposentadoria. Em 2013, ao lado de um amigo, começou a vender garrafas armazenadas dentro do próprio apartamento. "As caixas foram aumentando, aumentando. E a minha mulher falou, olha, ou os vinhos ou eu vão ter que sair daqui. E aí a gente resolveu, né? A gente achou um espaço num shoppingzinho que tem uma quadra para baixo da minha casa ali, e aí nós fomos para lá", relembrou. Mais de uma década depois, o negócio se transformou em duas lojas. A maior delas ocupa mais de 400 metros quadrados, reúne cerca de 20 mil garrafas e oferece 750 rótulos. Em outra unidade, localizada dentro de um resort de luxo, são mais 150 opções. Entre os vinhos mais procurados estão os produzidos no Chile, na Itália e no Brasil. "Aqui na loja a gente tem vinhos de 50 reais, mas tem vinhos de 6, 7 mil reais. E tem cliente para tudo", afirma César.
Mais que uma compra: uma experiência
Muitos consumidores buscam conhecimento sobre a bebida. O engenheiro de software Zinaldo Barros, que está de mudança para Recife após dois anos em Campinas, conta: "Ele não me vendeu um vinho aqui, ele me vendeu uma experiência, uma aula de fato. Ele me explicou muito, eu já saí daqui pensando em visitar outras vinícolas".
Adegas ganham espaço dentro de casa
O interesse crescente pelo vinho também reflete na arquitetura residencial. A arquiteta especializada em imóveis de luxo Ramsine Kézia afirma que cerca de 90% dos projetos contam com algum espaço dedicado ao armazenamento das garrafas. As opções vão desde nichos planejados em marcenaria até adegas climatizadas e ambientes construídos especificamente para esse fim. "Nós vamos ter primeiro a adega não climatizada, onde eu posso fazer na própria marcenaria um espaço para colocar as garrafas. Posso também comprar uma adega climatizada, menorzinha, para, sei lá, 12 garrafas. E um projeto onde você vai construir do zero uma adega, ele vai ter um custo maior, mas você vai precisar de mais espaço, né? Por exemplo, uns 4 metros quadrados é um espaço ótimo para se construir uma adega", explicou.
Em uma cobertura de 240 metros quadrados em Campinas, o empresário Marco Giampietri decidiu investir cerca de R$ 70 mil em uma adega integrada ao apartamento. O espaço tem quase 4 metros quadrados, capacidade para 350 garrafas e temperatura controlada entre 14°C e 18°C. "Primeiro que você consegue ver melhor os vinhos. Você vê aí o que você tem, onde está. Você traz uma pessoa de fora, você pode mostrar, entrar. Então aí nós resolvemos optar uma empresa aqui de Campinas que fez o projeto para a gente e fez ele harmonizado com o resto da decoração aqui e ficou muito legal", afirmou. Além da praticidade, o espaço virou ponto de encontro para amigos e família.
O vinho como elo social: grupo se reúne há 20 anos
Na região metropolitana de Campinas, um grupo de 10 amigos se reúne mensalmente há mais de 20 anos para explorar o universo dos vinhos. Batizado de "Taça da Quinta", o grupo mantém uma tradição: todos contribuem financeiramente todos os meses, participem ou não do encontro. "A regra basicamente é, todo mês nós temos, todo mês todos contribuem. Participando ou não daquele mês. E com essa verba, compram-se três vinhos. Isso desde o início", explicou o conselheiro administrativo Waldomiro Bacari.
Durante os encontros, além da degustação, há desafios para identificar origem, uva e características dos rótulos servidos. "É uma tarefa realmente muito difícil, porque engana muito. Porque aqui no Brasil nós tomamos vinho do mundo inteiro. Então, assim, pode ser qualquer coisa", disse o analista de sistemas Edgard Soares. Em uma das degustações, o administrador Francisco Carlos Sanches revelou as características do vinho escolhido: "É um vinho tempranilho, 95% tempranilho e 5% garnátia. O ano é 2020 e ele tem 14,5 de graduação alcoólica".
Ao longo dos anos, os integrantes também realizaram viagens para vinícolas brasileiras e internacionais. Para o médico Admar Concon Filho, o país tem produzido rótulos cada vez mais valorizados. "No Brasil, com essas vinícolas, tanto do Sul quanto da região aqui de São Paulo e Minas, que estão fazendo vinhos maravilhosos e merecem as nossas visitas, as nossas viagens". Mais do que a bebida, o grupo celebra a convivência construída ao longo de duas décadas. "O vinho foi o começo, foi a mola mestra, mas independente disso, a vontade de estar junto é independente do vinho", resumiu o médico Reinaldo Coimbra Martins.
A série especial "Cartas de Vinho" é exibida durante toda a semana no EPTV 1, mostrando como o legado dos imigrantes e a técnica da dupla poda impulsionaram a vitivinicultura em Minas Gerais e São Paulo. O aumento do consumo, o empreendedorismo e a busca por conhecimento consolidam o vinho como parte da cultura e economia regional.



