Cacau rompe fronteiras e avança para novas regiões produtoras no Brasil
Cacau rompe fronteiras e avança para novas regiões

O cultivo de cacau no Brasil está deixando para trás a imagem de atividade restrita ao sul da Bahia e ao Pará. Nos últimos cinco anos, a área plantada com a fruta cresceu 35% em estados como Rondônia, Mato Grosso e até no Paraná, segundo dados da Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC). A expansão é puxada por produtores que buscam diversificação de renda e terrenos mais baratos, aliada a variedades resistentes a doenças como a vassoura-de-bruxa.

Cenário nacional e novos polos

O Brasil produziu 290 mil toneladas de cacau em 2025, um recorde histórico, e a expectativa para 2026 é de ultrapassar 310 mil toneladas. Desse total, cerca de 15% já vêm de áreas consideradas não tradicionais. Em Rondônia, a produção saltou de 8 mil toneladas em 2020 para 22 mil toneladas em 2025. Mato Grosso, antes focado na soja, registra 12 mil hectares plantados com cacau, nove vezes mais que há uma década.

“O cacau se adaptou muito bem ao cerrado com o uso de irrigação e genética apropriada. Hoje temos lavouras produtivas em regiões que ninguém imaginava há 15 anos”, afirma o agrônomo Luís Carlos Silva, da Embrapa Amazônia Oriental.

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Tecnologia e sustentabilidade

O avanço é resultado de investimentos em pesquisa. A Embrapa desenvolveu clones como o CCN 51 e o PH 16, que são mais produtivos e tolerantes a secas. Além disso, sistemas agroflorestais (SAFs) integram o cacau a outras culturas, como açaí e banana, reduzindo custos e melhorando a qualidade do solo.

Segundo a ANPC, a produtividade média nacional subiu de 250 kg/ha em 2015 para 400 kg/ha em 2025. No novo polo de Rondônia, a média já atinge 550 kg/ha, rivalizando com os melhores índices da Bahia.

Impacto econômico e social

A expansão gera empregos no campo e renda para pequenos agricultores. No Paraná, a área plantada é modesta (1.200 hectares), mas o valor agregado é alto, com foco em cacau fino para chocolates artesanais. “O cacau gourmet paga até o dobro do preço do mercado comum”, destaca Maria Aparecida Oliveira, presidente da Cooperativa dos Cacauicultores do Paraná.

O movimento também alivia a pressão sobre as áreas tradicionais, que sofrem com o envelhecimento dos cacauais e a falta de renovação. Em Ilhéus (BA), a produção caiu 18% na última década, compensada pelo crescimento em novas fronteiras.

Desafios e perspectivas

Apesar do otimismo, a expansão enfrenta obstáculos: falta de assistência técnica, logística deficiente e oscilação de preços internacionais. A cotação do cacau no mercado futuro de Nova York, que rondava US$ 2.500 por tonelada em 2020, subiu para US$ 4.000 em meados de 2026, estimulando novos plantios, mas também atraindo especulação.

Entidades do setor pedem mais crédito oficial e políticas de seguro rural. “O cacau deixou de ser cultura de nicho. É uma alternativa real para a agricultura familiar e para a recuperação de áreas degradadas”, conclui Silva.

A tendência é que, em dez anos, o mapa do cacau brasileiro inclua ao menos mais cinco estados, consolidando o país como o terceiro maior produtor mundial, atrás apenas de Costa do Marfim e Gana.

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