O Brasil está importando menos fertilizantes e pagando mais caro por eles, consequência direta da guerra no Oriente Médio. A alta dos preços e a dificuldade de transporte podem levar agricultores a reduzirem a adubação nesta safra, afetando a produção de alimentos como arroz, laranja, café e trigo, apontam especialistas ouvidos pelo g1.
Oriente Médio: fornecedor estratégico em risco
O Oriente Médio é o quarto maior fornecedor do Brasil, depois de Europa, Ásia e África. A região tem papel central no mercado de fertilizantes por causa do Estreito de Ormuz, cujo fluxo de transporte se tornou instável desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. Essa rota – fundamental para o petróleo – também é passagem de cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes, segundo dados da Consultoria Agro do Itaú BBA. Ela responde por mais de 40% das exportações globais de ureia e por parcela relevante da amônia e metade do enxofre.
Preços disparam e acesso se torna mais difícil
Como consequência dos períodos em que a rota ficou fechada, os preços dispararam e o acesso dos produtores se complicou. A dificuldade de acesso ao petróleo também gerou escassez de enxofre, insumo usado na fabricação de fertilizantes fosfatados, dos quais o Brasil importa 80% do que consome. Resultado: entre janeiro e maio, o país importou cerca de 45% menos desse produto em comparação ao mesmo período do ano passado.
Diante desse cenário, indústrias de fertilizantes no Brasil têm reduzido a produção, como é o caso da Mosaic, uma das maiores empresas globais do setor.
Queda na produtividade e impacto nos preços
Lavouras que não recebem adubação adequada podem ter queda na produtividade, afetando a quantidade disponível, a qualidade e os preços, explica Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro. “A falta de fertilizante por si só pode não causar um impacto tão grande, mas é mais um problema que se soma ao cenário no campo e se torna preocupante”, afirma. Além da adubação, o agronegócio deve enfrentar um forte El Niño, que pode causar secas e chuvas fora de hora.
“É difícil saber qual vai ser a contribuição de cada um desses choques para uma possível alta no preço de alimentos”, explica Serigati. Confirmados os problemas, o impacto nos preços deve aparecer apenas no ano que vem, já que os efeitos atingirão a safra plantada neste semestre.
Endividamento e redução do uso de adubo
Segundo Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank, um dos principais efeitos da alta dos fertilizantes é o aumento do custo de produção, em um momento de endividamento dos agricultores. “Temos produtores que não tiveram condição de acessar o crédito, de comprar fertilizantes e vão tender a reduzir o uso do adubo”, afirma. Ele acrescenta que o único adubo que poderia ser retirado totalmente seria o fósforo, mas o estoque do solo já vem sendo consumido nos últimos anos, inviabilizando essa redução.
Para ele, todas as culturas podem ser afetadas, e as compras de fertilizantes já estão atrasadas para as safras de verão. Já Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, acredita que grandes produtores não devem ser muito impactados, pois contam com tecnologia e crédito. “Muitos deles contam com tecnologia em níveis altos e ideais de aplicação por um tempo. Então, isso cria um certo resíduo do solo”, explica. No entanto, agricultores menores, com menor acesso a crédito e a insumos, devem reduzir a aplicação, especialmente em culturas menos rentáveis, como trigo, café, laranja e arroz.
Dependência externa e instabilidade
O Brasil é altamente dependente de importações: compra do exterior 85% do fertilizante que consome. Até maio, a importação total caiu 1,5% em relação a 2025, com queda de 27% na ureia. No início do conflito, em fevereiro, o preço da ureia subiu 46% nas primeiras três semanas, segundo o Rabobank. Em junho, com a reabertura da rota, houve alívio, mas novos fechamentos fizeram os preços voltarem a subir.
Fornecedores importantes, como China (26% das importações brasileiras) e Rússia (23%), restringiram exportações para priorizar o mercado interno. De forma geral, 45% dos fertilizantes importados pelo Brasil vêm de países com alta propensão a instabilidade política ou violência geopolítica, aponta relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios.
Para Francisco Queiroz, especialista do Itaú BBA, a dependência deve continuar devido à queda de produtividade das fabricantes. Investimentos em plantas de nitrogênio no Brasil são uma solução de longo prazo.



