O Brasil é um exemplo global de transição energética, com 85% de sua matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, mas os cortes na geração — conhecidos como curtailment — estão travando novos projetos eólicos e solares. A avaliação é de João Brito Martins, CEO da EDP América do Sul, que comanda o grupo português no país.
Matriz limpa e desafios estruturais
Segundo Martins, a elevada participação de renováveis coloca o Brasil em posição de destaque, mas o curtailment — quando a geração de energia é reduzida ou interrompida por falta de demanda ou capacidade de transmissão — causa prejuízos aos produtores e desestimula investimentos. "O Brasil tem alta competitividade em energia, mas precisa de uma solução para os cortes na geração de fontes renováveis para avançar em investimento", afirmou o executivo.
Baterias como solução
A EDP planeja participar de leilões de baterias, vistos como forma de armazenar o excedente de energia e evitar o desperdício. A tecnologia pode dar resiliência ao sistema elétrico, permitindo que a energia gerada em horários de pico de produção seja usada quando houver demanda. "Os leilões de baterias são fundamentais para garantir que o potencial renovável do Brasil seja plenamente aproveitado", destacou Martins.
A empresa, que atua em geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia, vê no armazenamento uma oportunidade para destravar projetos que hoje enfrentam restrições operacionais. O executivo ressaltou que, sem medidas para lidar com o curtailment, o país pode perder o ritmo na atração de novos empreendimentos renováveis.
Impacto nos investimentos
Os cortes na geração já afetam parques eólicos no Nordeste e usinas solares no Sudeste e Centro-Oeste. Produtores relatam perdas financeiras significativas, o que reduz a atratividade de novos projetos. "Precisamos de regras claras e mecanismos de mercado que compensem os geradores quando há cortes, além de incentivos ao armazenamento", afirmou o CEO.
A EDP, que possui presença em vários segmentos do setor elétrico brasileiro, aposta na inovação para superar o gargalo. A participação em leilões de baterias é uma das frentes, mas Martins defende também a ampliação da rede de transmissão e a modernização do marco regulatório.
Perspectivas para o setor
O Brasil já é referência em energia limpa, mas o curtailment pode frear a expansão se não houver soluções integradas. A expectativa é que os leilões de baterias, previstos para os próximos meses, tragam um novo impulso. "Com baterias, podemos transformar o excedente em energia firme, garantindo segurança e viabilidade econômica para os investidores", concluiu Martins.



