Novas imagens mostram PMs atirando em jovem rendido em Paraisópolis
PMs atiram em jovem rendido: novas imagens de câmeras corporais

O julgamento dos dois policiais militares acusados de matar Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, durante uma operação em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, entrou no terceiro dia nesta quinta-feira (30) com uma alteração na programação. A sessão foi interrompida minutos após o início para que uma testemunha protegida, que já havia deposto no primeiro dia, fosse ouvida novamente a portas fechadas. A juíza determinou que todos deixassem o plenário, restando apenas a magistrada, o Ministério Público (MP), as defesas e os assistentes de acusação. O público, a imprensa e os jurados foram retirados da sala.

Testemunha protegida é ouvida novamente

O MP solicitou a reouvir a testemunha após alegar que ela teria cometido falso testemunho em seu primeiro depoimento. A testemunha permaneceu retida pela Promotoria desde o encerramento da sessão de quarta-feira (29). Após essa nova oitiva, os trabalhos devem ser retomados com os debates entre acusação e defesa. A previsão é que o julgamento seja concluído ainda nesta quinta-feira.

Novas imagens mostram jovem rendido e desarmado sendo baleado

Na quarta-feira, a TV Globo teve acesso a novas gravações das câmeras corporais dos agentes que participaram da ação. Os vídeos mostram, por outro ângulo e de forma mais detalhada, a sequência que terminou com a morte de Igor. Em uma sequência de cerca de 20 segundos, Igor aparece inicialmente rendido, com as mãos sobre a cabeça. Em seguida, ele se deita no chão após receber ordem dos policiais. Depois, começa a se levantar, com uma mão erguida, novamente obedecendo às determinações dos agentes. Nesse momento, o cabo Renato Torquatto da Cruz faz o primeiro disparo. Logo em seguida, o cabo Robson Noguchi de Lima também atira contra o jovem.

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As gravações mostram que, assim que os policiais chegam ao quarto onde estavam quatro suspeitos, todos se rendem. Durante a abordagem, é possível ouvir os policiais dizendo: "Perdeu, perdeu, perdeu." Na sequência, o cabo Renato, ainda do lado de fora do quarto, pergunta se há alguém armado e dispara duas vezes contra as paredes do imóvel. Após os tiros, os quatro suspeitos se deitam no chão enquanto os policiais continuam perguntando sobre armas. Pouco depois, Robson entra no cômodo, seguido por Renato, que pergunta a Igor se ele tem antecedentes criminais e se está armado. O jovem responde que não. O policial então manda Igor se levantar. Quando ele começa a obedecer, Renato dispara. Em seguida, Robson também atira. As imagens das câmeras corporais não mostram nenhuma arma com os quatro suspeitos. Após os disparos, os policiais passam a conversar para inferir que o suspeito portava uma arma: "Tava armado, caralho. Tava armado". Em seguida, fazem um novo disparo contra a parede enquanto repetem ordens para que os suspeitos "soltem a arma". Até o fim das gravações, não há registro da apreensão de nenhuma arma.

Defesa alega que câmeras não mostram a realidade

Dois policiais — os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima — respondem presos pelo crime de homicídio qualificado por motivo torpe e pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Segundo a acusação, foram eles que atiraram em Igor. Os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus também respondem pelo mesmo crime, mas na condição de colaboradores dos executores. No caso deles, o processo foi desmembrado e ainda não há data para o júri.

“A defesa pretende demonstrar aos jurados a legalidade da ação policial, eis que as câmeras corporais não mostraram a realidade”, afirmou João Carlos Campanini, advogado de dois dos acusados, o cabo Robson e o soldado Victor. O advogado Wanderley Alves dos Santos, que defende o cabo Renato e o soldado Hugo, disse que a acusação contra seus clientes é frágil. "A hipótese acusatória não se sustenta. Imagens da COP são apenas um recorte acerca dos fatos e estão sujeitas a diversos vieses cognitivos", disse Wanderley.

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Pai da vítima clama por justiça

"A gente busca justiça porque entendemos que foi uma execução. Não somos contra a PM. Esses PMs, no caso, acabaram manchando nome da corporação porque se excederam", disse o advogado Jonatha Carvalho, que atua no caso ao lado da advogada Gabriela Amoras Silva. Eles defendem os interesses da família de Igor e atuam como assistentes da acusação. "O que mais me dói é que meu filho ficou agonizando e deixaram-no morrer de olhos e boca abertos", disse Magdo de Moraes Santos, pai de Igor, ao g1. "Vieram na maldade." Igor deixou uma filha de 5 anos.

O julgamento dos dois PMs é conduzido pelo Tribunal do Júri, responsável por analisar crimes dolosos contra a vida. Caberá aos sete jurados decidir se os policiais são culpados ou inocentes pelas acusações relacionadas ao assassinato. A expectativa é que o julgamento seja encerrado ainda nesta quinta-feira.