Os principais portos do Brasil enfrentam recorde de movimentação de cargas e já programam dragagens emergenciais para ampliar a profundidade dos canais de acesso. A medida visa evitar congestionamentos que podem comprometer o escoamento da safra agrícola e as exportações de minérios.
Crise de capacidade nos terminais
Dados da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) indicam que a movimentação nos portos cresceu 12% no primeiro semestre de 2026, atingindo 210 milhões de toneladas. O aumento pressiona a infraestrutura, especialmente em Santos, Paranaguá e Rio Grande, que operam com ocupação acima de 85%.
“Precisamos agir agora para evitar que os navios fiquem dias esperando para atracar”, afirmou o presidente da ABTP, Carlos Eduardo Ferreira. “A dragagem é a solução mais rápida para ganhar calado e permitir a entrada de embarcações maiores.”
Investimentos previstos
O governo federal anunciou um pacote de R$ 1,2 bilhão para dragagens nos próximos dois anos. Desses, R$ 400 milhões serão destinados ao Porto de Santos, que receberá draga para aprofundar o canal de navegação de 15 para 17 metros. Em Paranaguá, a meta é atingir 14 metros de profundidade, ante os atuais 12,5 metros.
Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, as obras devem começar ainda em 2026, com conclusão prevista para o primeiro semestre de 2027. A expectativa é que a capacidade de movimentação aumente em 30% nos terminais beneficiados.
Impacto na logística
O setor agrícola é o mais afetado pela falta de calado. Com a supersafra de soja e milho, estimada em 320 milhões de toneladas, o escoamento enfrenta gargalos. A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) calcula que cada metro adicional de profundidade reduz em até 15% o custo do frete marítimo.
“A dragagem não é apenas uma obra de engenharia, é uma questão de competitividade”, destacou o presidente da ANEC, Sérgio Mendes. “Sem ela, perdemos mercado para países como Estados Unidos e Argentina.”
Desafios ambientais
As dragagens enfrentam resistência de órgãos ambientais. O Ibama exige estudos de impacto e planos de disposição do material dragado. No Porto de Rio Grande, uma ação judicial suspendeu as obras por seis meses, até que fossem apresentadas alternativas para o descarte do sedimento.
“O licenciamento ambiental é demorado, mas essencial para evitar danos aos ecossistemas marinhos”, afirmou a superintendente do Ibama no Rio Grande do Sul, Ana Paula Silva. “Estamos trabalhando em conjunto com os portos para conciliar desenvolvimento e sustentabilidade.”
Cronograma das dragagens
Além dos portos de Santos, Paranaguá e Rio Grande, estão programadas dragagens nos portos de Itajaí, Vitória e São Francisco do Sul. Cada projeto tem cronograma específico, mas todos devem ser concluídos até o final de 2027. A expectativa é que, com as obras, o Brasil ganhe até 2 metros de calado médio nos principais terminais.
O setor portuário também aguarda a aprovação de um projeto de lei que simplifica o licenciamento ambiental para dragagens de manutenção, considerado essencial para acelerar as intervenções. A proposta tramita no Congresso Nacional e deve ser votada ainda este ano.



