O Brasil precisa repensar urgentemente a forma como financia e planeja o transporte público, sob risco de levar o sistema ao colapso. A avaliação é de Rafael Pereira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que critica a excessiva dependência das tarifas como principal fonte de receita.
Segundo Pereira, aumentar a tarifa sem melhorar a qualidade do serviço afasta ainda mais os passageiros, gerando um ciclo vicioso de perda de demanda e elevação de custos. “Subir a tarifa sem melhorar o transporte público leva o sistema à beira do abismo”, afirmou o especialista.
Modelo de financiamento em xeque
O pesquisador defende que o Brasil adote um novo modelo de financiamento, com maior participação de subsídios públicos. Para ele, a tarifa não pode ser a única âncora do sistema, sob pena de excluir a população de baixa renda e inviabilizar economicamente as operações.
Pereira destaca que países com transporte público de qualidade contam com fontes diversificadas de recursos, incluindo subsídios governamentais e taxas sobre benefícios indiretos, como a valorização imobiliária. “Precisamos de um planejamento que priorize projetos que melhorem o acesso a serviços e oportunidades”, completou.
Infraestrutura cicloviária e transporte ativo
Além do financiamento, o especialista defende investimentos em infraestrutura cicloviária e transporte ativo, como ciclovias e calçadas adequadas. Essas medidas, segundo ele, podem complementar o transporte público e oferecer alternativas sustentáveis de mobilidade.
“O transporte ativo não é apenas uma questão de lazer, mas de acesso a empregos, saúde e educação. Integrá-lo ao sistema de transporte público é fundamental para cidades mais inclusivas”, argumentou Pereira.
Impactos da crise no transporte
A crise no setor já se reflete na queda de passageiros em diversas capitais. Dados do Ipea mostram que a redução da demanda agrava o déficit operacional, pressionando por aumentos tarifários que realimentam o problema. Sem uma mudança estrutural, o sistema pode entrar em colapso irreversível.
Pereira conclui que a saída passa por uma revisão profunda do modelo, com participação de todos os entes federados e da sociedade. “Não se trata apenas de dinheiro, mas de prioridade política. O transporte público precisa ser tratado como serviço essencial, e não como negócio”, finalizou.



