Fiscalização eletrônica da ANTT eleva multas do piso do frete para R$354 mi
Fiscalização eletrônica eleva multas do piso do frete

O cerco digital da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) transformou a realidade das estradas brasileiras: as multas por descumprimento do piso mínimo do frete saltaram de R$ 69 mil em 2018 para mais de R$ 354 milhões em 2026. O bloqueio eletrônico de irregularidades passou a ocorrer antes mesmo de o caminhão deixar o pátio, invertendo a responsabilidade financeira no transporte de cargas.

Evolução das penalidades e o impacto no setor

Dados divulgados pela ANTT mostram que, em 2018, primeiro ano de vigência da política de piso mínimo, as autuações somaram apenas R$ 69 mil. Em 2022, o valor já havia ultrapassado R$ 12 milhões. A partir de 2024, com a implantação do sistema de fiscalização eletrônica integrado ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), as multas dispararam: chegaram a R$ 98 milhões em 2024 e a R$ 245 milhões em 2025, projetando R$ 354 milhões para 2026.

O aumento exponencial reflete a eficiência do novo sistema, que cruza dados de contratação, pagamento e documentação em tempo real. De acordo com Lucas Vidal Cardoso, diretor da Interlink Cargo, a fiscalização eletrônica reduziu drasticamente a margem para inconsistências. "Antes, as irregularidades eram detectadas apenas em fiscalizações de balança ou postos fixos. Agora, o sistema impede a emissão do documento fiscal se o frete não atender ao piso mínimo", explica Cardoso.

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Como funciona o bloqueio eletrônico

A fiscalização eletrônica da ANTT atua diretamente no sistema de emissão de MDF-e. Quando uma transportadora tenta registrar uma viagem com valor de frete abaixo do piso estabelecido pela tabela vigente, o sistema automaticamente bloqueia a emissão do manifesto. Isso significa que o caminhão não pode circular legalmente sem o documento fiscal, impedindo a irregularidade antes mesmo da partida.

"O sistema verifica o valor do frete informado, o peso da carga, a distância percorrida e o tipo de produto. Se houver discrepância, a operação é recusada e a transportadora é notificada imediatamente", detalha Cardoso. A integração com a Receita Federal e os governos estaduais permite ainda a cobrança de multas retroativas em casos de tentativas de burla.

Tabela do frete mínimo e vale-pedágio

A tabela do frete mínimo, instituída pela Lei 13.703/2018, estabelece valores mínimos por quilômetro rodado para cada tipo de carga e modalidade de transporte. O vale-pedágio obrigatório, por sua vez, é um valor adicional destinado a cobrir os custos de pedágio, que deve ser pago pelo contratante do frete. A combinação das duas regras visa garantir uma remuneração justa ao caminhoneiro e evitar a precarização do setor.

Com a fiscalização eletrônica, o vale-pedágio passou a ser incluído automaticamente no cálculo do frete mínimo. "Antes, muitas empresas contratavam o frete por um valor e deixavam o vale-pedágio como item separado, o que muitas vezes não era pago ou não era suficiente. Agora, o sistema exige que ambos estejam em conformidade", afirma o diretor da Interlink Cargo.

Reações do mercado e perspectivas

O aumento das multas gerou reações mistas no setor de transportes. De um lado, associações de caminhoneiros e sindicatos de transporte celebram a efetividade da fiscalização, que garante o cumprimento da lei e protege o motorista. De outro, algumas empresas reclamam do rigor excessivo e da falta de tempo para se adaptar às novas regras.

A Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) considera que a fiscalização eletrônica é um avanço, mas defende ajustes na tabela do frete mínimo, que está congelada desde 2020. "A tabela precisa ser atualizada com base na inflação e nos custos reais dos insumos, especialmente o diesel. Caso contrário, as multas continuarão a crescer, mas o problema estrutural permanecerá", alerta a entidade em nota.

Lucas Vidal Cardoso concorda que a fiscalização eletrônica veio para ficar e tende a se aperfeiçoar. "A transparência é o maior benefício. Tanto o contratante quanto o transportador sabem exatamente o que esperar. Isso reduz litígios e ineficiências no longo prazo", conclui.

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Impacto econômico e social

O montante arrecadado com as multas ultrapassou meio bilhão de reais desde 2018, considerando valores já pagos e pendentes. Esses recursos são destinados ao Fundo de Fiscalização das Atividades de Transporte (FFAT), que financia ações de controle e melhoria das condições de trabalho no setor. Especialistas apontam que, apesar do impacto inicial, a regularização do mercado tende a beneficiar toda a cadeia logística, reduzindo a concorrência desleal e incentivando a profissionalização.

Para os caminhoneiros autônomos, a fiscalização eletrônica representa uma segurança adicional. "Antes, eu perdia contratos porque concorrentes ofereciam fretes muito baixos, abaixo do piso. Agora, todo mundo precisa seguir a tabela, e o jogo fica mais justo", afirma Adilson Santos, motorista de caminhão há 15 anos.

Próximos passos da ANTT

A ANTT anunciou que, até 2027, pretende expandir a fiscalização eletrônica para todas as modalidades de transporte rodoviário de cargas, incluindo cargas fracionadas e perigosas. Além disso, estuda integrar o sistema com plataformas de pagamento digital para verificar se o valor do frete foi efetivamente creditado ao motorista. "A tecnologia nos permite avançar rapidamente. Nosso objetivo é garantir que a lei seja cumprida sem sobrecarregar o setor com burocracia", afirma o diretor da agência.