Mortes por ação policial no RJ superam 8 mil desde 2019; negros são 6 vezes mais atingidos
RJ: 8 mil mortes em ações policiais desde 2019; negros 6x mais

Mais de 8 mil pessoas morreram em ações policiais no Rio de Janeiro desde 2019, segundo levantamento da Rede de Observatórios divulgado nesta quarta-feira (1º). O boletim “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã” analisa o impacto da violência contra populações pretas em nove estados. Os pesquisadores utilizaram dados fornecidos pelas secretarias de Segurança Pública e constataram que negros têm seis vezes mais chances do que brancos de morrer em operações policiais no RJ.

Perfil das vítimas e aumento em 2025

A maioria das vítimas é composta por homens negros e jovens. Em 2025, foram 800 mortes por intervenção policial no estado, um aumento de 13,8% em comparação a 2024, quando houve 703 registros. Desde 2019, o total acumulado chega a 8.119 mortes. O ano de 2019 lidera com 1.814 mortes, seguido por 2021 (1.356), 2022 (1.330), 2020 (1.245), 2023 (871), 2025 (800) e 2024 (703).

Especialistas apontam descontrole e falta de política efetiva

O coronel José Vicente Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, classificou as estatísticas como reflexo de um “descontrole” das forças policiais. “O que melhorou a segurança nesse período? Quantas áreas foram retomadas de facções e milícias de lá para cá?”, questionou, apontando um fator político para que o problema não seja resolvido. “A política não controla por um lado, e estimula (a violência) por outro”, disse.

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A pesquisadora Manuela Peclat, representante da Rede de Observatórios no Rio de Janeiro, afirmou que o aumento das mortes revela a falta de uma política efetiva de segurança pública. “Esses números estão apontando que toda essa guerra às drogas e as movimentações políticas que motivam essas ações policiais revelam uma falta de ciência de como combater o crime organizado de forma efetiva”, pontuou.

Crianças entre as vítimas

A população jovem foi duramente atingida: 409 mortos por intervenção policial tinham entre 18 e 29 anos. O Rio foi o único estado a registrar mortes de crianças de até 11 anos – foram dois casos. “É um indício de uma política completamente fracassada, que já é orientada para a morte. Como você pensa que uma pessoa entre 0 e 11 anos poderia estar em confronto e representar uma ameaça aos policiais?”, questionou Manuela.

Componente racial

A pesquisadora explicou que a taxa de letalidade é calculada dividindo a proporção entre negros e brancos a partir da taxa por 100 mil habitantes. “Os dados são fornecidos pelas próprias secretarias de Segurança Pública. A gente faz a avaliação deles, a busca por inconsistências. E, a partir dessa padronização e validação, são geradas estatísticas descritivas com as proporções das vítimas por raça e por cor”, detalhou. A porcentagem de pessoas negras e pardas na população fluminense é de 57,8%, segundo pesquisa do mesmo observatório de 2021. No entanto, os dados de 2025 indicam que esse grupo corresponde a 89,5% das vítimas de letalidade policial. “Você tem um futuro totalmente ameaçado quando olha que a maior parte das mortes tem um perfil muito claro de pessoas de 0 a 29 anos”, ponderou Manuela.

Megaoperação no Alemão e nota da Polícia Civil

O documento cita a operação Contenção, da Polícia Civil do Rio, que resultou em mais de 120 mortes no Complexo do Alemão em outubro de 2025. A ação é apontada como a mais letal da história do país. “A utilização do termo ‘narcoterroristas’, assim como a associação dos mortos à chamada ‘chacina do Alemão’, reflete a normalização da violência extrema como elemento estruturante da segurança pública fluminense”, dizem os pesquisadores.

Denúncias de abusos cometidos por policiais foram feitas ao Ministério Público e aos órgãos de controle, incluindo invasões a casas, roubos e furtos durante as incursões. José Vicente Filho afirmou: “Eu não tenho dúvida que aquela ação do ano passado foi o maior desastre de violência da história da polícia brasileira. É um desastre em termos de concepção operacional e execução operacional”.

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Em nota, a Polícia Civil do Rio afirmou que as mortes foram “consequência dos confrontos provocados pela resistência armada dos criminosos” e que a ação visava “combater organizações criminosas fortemente armadas, que dominavam comunidades, impunham barricadas, utilizavam armamento de guerra e atacavam as forças de segurança”.

Câmeras corporais e controle

O uso de câmeras corporais no Rio, iniciado em 2022 com a Polícia Militar, tem sido alvo de investigações por mau uso. Na megaoperação de outubro de 2025, apenas 23% dos policiais utilizavam os equipamentos. Para José Vicente Filho, as câmeras não são suficientes sem mecanismos de controle e transparência. “É necessário ter padrões, regras, vindas a partir do governador, não deixar a polícia agir como bem entende. É necessário que policiais tenham treinamento de altíssima qualidade para saber exatamente como e quando atirar”, pontuou.