O protetor de animais Társis Araújo Magalhães Ramos, de 43 anos, acusa a major da Polícia Militar Dyanna Vieira de Oliveira, de 41, de ameaçá-lo e de mandar prendê-lo por alimentar gatos em situação de rua no bairro Cinturão Verde, zona Oeste de Boa Vista. A oficial afirma que deve apresentar sua versão 'tão logo seja possível'.
Prisão após colocar comida para gatos
Társis, que também é professor do curso superior de Letras no Instituto Federal de Roraima (IFRR), foi preso na noite de quinta-feira (9) após colocar comida para os animais e a major acionar a PM. Na delegacia, ele deu depoimento na condição de infrator e foi liberado. Em um vídeo publicado nas redes sociais, Társis relatou parte do que, segundo ele, ocorreu durante a abordagem e a atuação da major.
Registro da ocorrência aponta major como vítima
No registro da ocorrência que resultou na prisão de Társis, o sargento que comandava a equipe da PM apontou a major como vítima e Társis como infrator. O caso foi registrado pelos crimes de ameaça, desobediência e pela contravenção penal de perturbação do sossego. A major não estava de serviço.
De acordo com ele, a major o persegue desde o ano passado. 'Mas, ontem [9 de julho], ela passou dos limites. Deu a famosa carteirada. Ela começou a me ameaçar e a dizer que era major. Falei pra ela que não me importava se ela era major, se ela era da Polícia Militar, que eu ia continuar dando comida pros animais porque a rua era pública', afirmou.
Ordem para colocar no camburão
Na delegacia, segundo Társis, a major deu ordem para que o sargento da ocorrência o colocasse no camburão da viatura. 'Quando cheguei na delegacia, escoltado no carro da polícia, o sargento foi chamado por ela, pela major Dyanna. Ela não estava de farda e vi ela dizendo que era para ele me colocar no camburão', disse, acrescentando que 'ele [sargento] obedeceu ela porque a patente era menor. Ele foi bastante ríspido comigo. Disse que ele que não podia fazer isso, que não havia necessidade, mas como eles queriam me intimidar, ele obedeceu', detalhou.
Versão da major
Procurada, Dyanna disse ao g1 que 'no momento oportuno, e tão logo seja possível, apresentarei minha versão completa dos acontecimentos, com a serenidade e os esclarecimentos necessários, permitindo que a população tenha acesso aos fatos de forma íntegra e contextualizada. Reafirmo minha confiança de que a verdade será devidamente esclarecida pelas vias legais'.
Posicionamento da PM
Em nota, a PM informou que 'as circunstâncias dos fatos estão sendo levantadas para a devida análise'. Destacou ainda que 'a policial militar mencionada não se encontrava em serviço no momento dos fatos, razão pela qual o episódio não decorreu, em princípio, de atuação institucional da Corporação'.
Em um trecho do vídeo divulgado nas redes sociais, Társis registra uma discussão com a major. Durante a gravação, ele diz: 'Ela se acha autoridade', e Dyanna rebate: 'Eu acho não, eu sou'.
Histórico de perseguição
Társis é vizinho de bairro da major. Ele afirma que alimenta os gatos da rua há cerca de 15 anos, desde que também morava nessa rua. Segundo o protetor de animais, a ração costuma ser colocada na calçada da casa de uma vizinha da major, que teria autorizado. Ele registrou um boletim de ocorrência por ameaça contra a major e o filho dela neste sábado (11). Procurada, a Polícia Civil não enviou resposta até a última atualização da reportagem.
Ofensas e falsas acusações
O protetor relata ter sido alvo de agressões verbais durante a discussão. Segundo Társis, ele e o companheiro foram chamados de 'filho da puta' e 'marginal'. Além disso, o protetor de animais acusou a major de fazer falsas acusações contra ele. Segundo Társis, a policial afirmou que ele circulava pela região para praticar furtos e assaltos. Ele nega a acusação e diz que estava no local apenas para alimentar os animais.
Társis também afirma que o companheiro dele foi intimidado pelo marido da major. Segundo o relato, ele teria ameaçado apreender o veículo sob a alegação de que havia drogas no carro.
Conflitos antigos e tentativas de impedir alimentação
Társis alega ainda que os conflitos com a major não são recentes. Segundo ele, os episódios de intimidação começaram há cerca de um ano. Em algumas ocasiões, ela passou de carro acelerando, buzinando e fazendo manobras com o objetivo de intimidá-lo. 'Essa mulher já me perseguia, já cantava pneu passando por mim e abrindo a porta da garagem e buzinando, sabe? Me ameaçando mesmo de forma subjetiva. Ela dizia: 'eu não quero que você ponha aí porra de ração nenhuma'. Extremamente raivosa, muito alterada', afirmou.
De acordo com ele, a major também tentava impedir a alimentação dos animais, mesmo quando a atividade era realizada em via pública ou na calçada da casa de uma vizinha que autorizou a prática. Társis afirma ainda que a major e o filho dela tentam impedir o trabalho que desenvolve com animais em situação de rua. Segundo o protetor, eles retiram ou descartam a ração deixada para os gatos e dificultam as ações de cuidado com os animais.
'Eu falei: 'nem se a senhora for o Papa, eu vou continuar colocando ração. Porque a senhora não manda na rua, a senhora não manda na calçada e a senhora não manda na calçada da vizinha'', disse.
Transtornos alegados pela major
No registro da ocorrência sobre a prisão de Társis, o sargento registrou que a major relatou que a iniciativa dele de alimentar os gatos tem causado diversos transtornos, como acúmulo de sujeira, mau cheiro, presença de fezes no terreno, animais no forro da residência e até o aparecimento de filhotes em locais inadequados, como a caixa d'água do imóvel.
Ele explica que o trabalho inclui a alimentação dos animais, a castração e o incentivo à adoção dos gatos resgatados. 'Eu já alimento os animais de rua há alguns anos. Sou protetor independente, consigo castração para animais e o meu método é me aproximar dos gatos em especial', disse.
Ainda conforme o relatório, ela tentou resolver a situação diversas vezes de forma amigável, sugerindo que Társis encaminhasse os animais para adoção ou buscasse auxílio de organizações de proteção animal.



