A Polícia Civil do Paraná (PCPR) reabriu investigações de um caso após integrantes de um grupo de oração reconhecerem a mulher de 37 anos presa em Santa Catarina por se passar por uma adolescente de 12 anos. As vítimas afirmam que também foram enganadas por ela em 2021, quando ela se passou por uma jovem de 13 anos com câncer terminal e obteve dinheiro delas.
Histórico do caso
O caso foi registrado em Boletim de Ocorrência em 2022 e um inquérito foi instaurado em dezembro do mesmo ano. Segundo a Polícia Civil, a equipe investigou a situação, mas não foi possível chegar à autoria do crime. "Com o surgimento de novas informações a partir da prisão ocorrida em Santa Catarina, a PCPR intimará as vítimas de Colombo para que façam o procedimento de reconhecimento da suspeita", diz a corporação.
Os membros do grupo contrataram uma advogada, que informou que a investigação ainda não foi concluída, mas que pediu a integração da apuração com outros estados onde a mulher é investigada. A suspeita, identificada como Amanda Maria Souza de Oliveira, disse à família catarinense que se chamava "Gabriele", enquanto para os paranaenses usava o nome "Emily". O g1 procurou a defesa da mulher e aguarda resposta.
Abordagem às vítimas
No caso envolvendo o grupo de oração, Amanda teria passado cerca de dez meses relatando histórias de doença, abandono, violência e perdas familiares. As vítimas afirmam que só começaram a desconfiar quando ela passou a pedir dinheiro. Uma das vítimas, que não quis se identificar, relatou: "Nós tínhamos um grupo de oração na época do Covid e nos reuníamos online. Então ela surgiu, dizendo que era uma criança de 13 anos, que estava em fase terminal, e ela queria que nós orássemos para que ela morresse, porque a mãe dela vivia no hospital por conta dela, e ela queria morrer para que a mãe pudesse descansar. Nós ficamos atônitos: como é que uma criança de 13 anos pede para morrer? Então a gente se envolveu nessa história".
A mulher chegou a tatuar o nome "Emily" no pulso após criar um forte vínculo afetivo com a suposta adolescente. A tatuagem foi removida depois que o golpe foi descoberto. "Primeiro ela pede para eu ser madrinha, porque, como ela estava morrendo, ela queria entrar no céu, e, para entrar no céu, ela tinha que ser batizada. Quando a mãe dela morre, ela fala: 'Já que a minha mãe morreu, eu posso te chamar de mãe?'", detalha a vítima.
Falta de avanços e esperança de justiça
Apesar de o Boletim de Ocorrência e uma representação formal terem sido registrados em 2022, as vítimas afirmam que o caso ficou sem avanços por anos. Com a prisão em Santa Catarina, elas esperam que as investigações sejam retomadas e que a suspeita responda pelos prejuízos emocionais e financeiros causados ao grupo. "Comigo foi muito cruel, minha cunhada tinha acabado de falecer. O que eu perdi de vida, de emocional, de psicológico, ninguém vai restaurar. Ela chamava os meus filhos de irmão. Meus filhos chamavam ela de irmã e gravavam vídeos e áudios para ela todos os dias. Quando eu lembro que deixei de pegar a minha sobrinha no colo – que foi a filha do meu irmão que deixou de ter mãe – por causa dessa bandida. E se soltarem ela agora, ela vai fazer mais vítimas", desabafa.
Trama elaborada
Segundo a advogada que representa as vítimas, após entrar em contato com o grupo de oração, Amanda passou a criar uma trama cada vez mais complexa para conquistar a confiança dos participantes. Ela dizia que precisava de um transplante de medula óssea, relatou a morte da mãe após um acidente de carro e afirmou ter passado a viver com o pai e a avó. Depois, contou que sofria agressões, que o pai teria cometido crimes contra ela e que ele acabou tirando a própria vida. Também alegou que o câncer havia se agravado, estava em metástase, e que precisou ser internada diversas vezes. "Durante seu novo internamento, 'Emily' relatou ter sido estuprada no hospital e, ainda, que precisou amputar um de seus braços, em razão do agravamento da doença", detalha a notícia-crime que comunicou o caso às autoridades.
As histórias provocaram forte comoção e fizeram com que os integrantes se envolvessem cada vez mais emocionalmente com a suspeita. Ao longo dos meses, ela evitou encontros presenciais e sempre encontrava justificativas para não ser vista. A farsa começou a ruir quando Amanda passou a pedir dinheiro aos participantes. Desconfiados, eles procuraram hospitais citados por ela e não encontraram registros de internação. A confirmação veio durante uma videochamada. Uma integrante pediu para conversar com uma suposta tia da adolescente e percebeu que a mulher na tela era a mesma pessoa que se apresentava como "Emily". Pressionada, ela admitiu que não era uma criança doente, mas uma mulher adulta que havia inventado toda a história.
Caso em Santa Catarina
O caso ganhou repercussão após a prisão de Amanda, na terça-feira (2), em Joinville. Segundo a Polícia Civil de Santa Catarina, ela viveu por 14 meses na casa de uma família após alegar ter fugido de maus-tratos no Pará. A ata da audiência de custódia mostra que a investigada se aproximou da família por intermédio de um pastor da igreja. Inicialmente, declarou ter 18 anos, experiência em panificação e que buscava emprego. Com o passar do tempo, passou a relatar problemas de saúde e dificuldades financeiras, o que motivou o casal a acolhê-la temporariamente em casa. Após conquistar a confiança da família, a mulher teria alterado sua versão, afirmando ter apenas 11 anos e alegando ter sido vítima de abusos. O casal, então, se sensibilizou e permitiu que ela passasse a morar com eles. Acreditando na condição de vulnerabilidade infantil apresentada por ela, o pai e a mãe chegaram a organizar uma festa de 12 anos para a menina comemorar o suposto aniversário.
A investigação aponta que a suspeita aplicou golpes semelhantes em ao menos outros sete estados. Em depoimento à Polícia Civil catarinense, nesta semana, Amanda Maria Souza de Oliveira confessou ter aplicado o mesmo golpe em outros cinco estados: Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Ceará. Um caso em Natal (Rio Grande do Sul) também veio à tona nos últimos dias. Em Santa Catarina, a polícia investiga outras duas ocorrências em Florianópolis e Chapecó.



