O policial penal Paulo dos Santos Silva, investigado por agiotagem e perseguição contra uma professora em Boa Vista, proferiu ameaças diretas como 'eu sou ruim, não tenho coração' e 'com polícia ninguém brinca', conforme a investigação da Polícia Civil de Roraima. O caso ganhou repercussão após a vítima, que também é feirante, denunciar as intimidações.
Detalhes do empréstimo e cobranças abusivas
Segundo o inquérito, a professora pegou R$ 5 mil emprestados com o policial cerca de seis meses antes da denúncia. O acordo verbal previa juros de 20% ao mês, valor muito acima do permitido por lei. As primeiras parcelas foram pagas, mas um imprevisto financeiro em abril impediu a quitação de parte do valor. Foi então que Paulo passou a cobrar taxas excessivas, alegando que a dívida havia subido para R$ 25 mil.
Intimidações presenciais e por telefone
Em maio, o policial foi pessoalmente ao local de trabalho da mulher para cobrar a dívida. No local, ele afirmou que ela teria que pagar 'de uma forma ou de outra' e disse: 'Eu sou ruim. Não tenho coração. Você está tratando é com homem e não com moleque, e com polícia ninguém brinca'. Uma cliente que estava na loja saiu assustada ao ouvir as ameaças, segundo depoimento da vítima. Dias depois, o policial ligou para a professora, iniciando a conversa com voz calma e depois mudando o tom, repetindo as mesmas frases de intimidação.
Ameaças por WhatsApp e perseguição constante
As mensagens pelo WhatsApp também eram frequentes. Em uma delas, o policial escreveu: 'Não se queime comigo minha amiga. Eu não tenho coração, sempre te falei isso'. Em outra, pressionou: 'Vc fez negócio foi com o HOMEM'. O agente fazia ligações em horários inoportunos, como às 4h da manhã, e passou a procurar o marido e a irmã da vítima. Ao marido, afirmou que já tinha a rotina dela 'mapeada' e que a localizaria em qualquer lugar. O adolescente de 14 anos, filho da vítima, presenciou os gritos do policial e sentiu medo de ser procurado na escola.
Impacto na saúde da vítima e medidas judiciais
A pressão constante fez com que a professora desenvolvesse síndrome do pânico e precisasse de acompanhamento psicológico. O Ministério Público de Roraima apoiou o pedido de medidas protetivas de urgência, que foram aceitas pela Justiça em julho. O juiz determinou que o policial mantenha distância mínima de 300 metros da mulher e da família dela, e proibiu qualquer tipo de contato. No entanto, o juiz negou a suspensão do porte de arma do agente em razão da profissão, mas alertou que o descumprimento das medidas pode resultar em punições mais graves.
Posição da defesa e andamento do caso
A defesa de Paulo dos Santos Silva informou, em nota, que as acusações são falsas. Segundo o pronunciamento, a própria vítima reconheceu a existência da dívida financeira em depoimento à polícia, e a denúncia seria uma tentativa de evitar o pagamento do empréstimo. A defesa afirmou que o servidor apresentou documentos à Justiça para comprovar a legalidade do acordo financeiro, que está à disposição para colaborar com as investigações e que adotará medidas judiciais contra as acusações.
Providências institucionais
A Polícia Civil informou que abriu inquérito para investigar o caso. A Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejuc) confirmou que recebeu notificação judicial sobre as restrições impostas ao policial, mas declarou que não há ordem da Justiça para afastar o servidor do cargo ou abrir processo disciplinar. A Corregedoria disse que acompanha o caso e aguarda o fim da apuração para tomar as medidas administrativas cabíveis.



