Imagens da câmera corporal de um policial militar registraram o momento em que o cabo Cauan Alencar Bastos disparou seis vezes contra Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, e, em seguida, implorou para que ele não morresse. O caso ocorreu no Jardim Pirituba, Zona Norte de São Paulo, em 29 de abril. A TV Globo e o g1 tiveram acesso às gravações na quarta-feira (17).
O momento dos disparos e a reação do policial
As imagens mostram que, enquanto a viatura se aproximava de Igor, o cabo Cauan desceu do veículo dizendo: "Eu vou matar ele, eu vou dar tiro". Na sequência, ele efetuou seis disparos. O soldado José Otávio Pinheiro atirou uma vez. Igor foi atingido por quatro tiros — dois na região inferior direita do corpo, um no flanco direito e um no flanco esquerdo — e morreu no local.
Após os disparos, equipes da Polícia Militar chegaram ao local e iniciaram manobras de reanimação. Enquanto Igor recebia massagem cardíaca, é possível ouvir o cabo Cauan com a voz embargada pedindo que ele sobreviva: "Igor, a ambulância está chegando. Pelo amor de Deus, não morre, não, mano. Fica vivo, respira. Por favor, irmão, respira. Não morre, não. Não morre não, moço, por favor". Percebendo o desespero no tom do policial, a mulher que realizava a massagem cardíaca chegou a dizer: "calma, moço". Em outro momento, o policial se afastou até a viatura e rezou o Pai-Nosso por cerca de 20 segundos.
Ouvidoria critica despreparo e defende câmeras
Em nota divulgada nesta quinta-feira (18), a Ouvidoria da Polícia de São Paulo afirmou que "o episódio evidencia a necessidade urgente de uma profunda revisão das políticas de saúde mental destinadas aos profissionais da segurança pública". A nota ainda diz: "A população não pode continuar pagando com vidas o preço do despreparo, do descontrole emocional ou da incapacidade de atuação compatível com os princípios que devem orientar a atividade policial".
A Ouvidoria também destacou a importância do uso das Câmeras Operacionais Portáteis (COPs), que permitiram o esclarecimento dos fatos. Segundo o órgão, o equipamento é "indispensável para a proteção da população, para a valorização dos bons policiais e para o combate à impunidade".
Contexto: briga de trânsito e problemas de saúde
Igor dirigia um carro pela Avenida Raimundo Pereira de Magalhães quando parou em um semáforo vermelho. Ele desceu do veículo com uma faca na mão e correu em direção a um motociclista que também aguardava no farol, após uma briga de trânsito. De acordo com familiares, ele fazia uso de medicamentos controlados para tratar esquizofrenia. Igor trabalhava como eletricista, encanador e realizava serviços de manutenção em geral.
O motociclista foi até um posto de combustíveis próximo e pediu ajuda ao cabo Cauan e ao soldado José Otávio, que estavam com a viatura estacionada no local. Imagens de uma câmera de segurança divulgadas pela TV Globo no mês passado mostram que Igor foi atingido quando colocava a faca no chão. As imagens são apontadas pela família como evidência de que ele tentava se render no momento dos disparos.
Versão dos policiais e investigação
As imagens contradizem a versão apresentada pelos policiais na delegacia. Eles afirmaram que Igor avançou contra o motociclista e também contra a equipe policial com a faca, motivo pelo qual efetuaram os disparos. Em depoimento à Polícia Civil, o pai de Igor relatou que o filho tinha o temperamento forte em razão do problema de saúde e que possuía ferramentas, como a faca, por ser eletricista.
Os dois policiais foram afastados do serviço operacional e são investigados em um inquérito policial militar instaurado no 18º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, com acompanhamento da Corregedoria, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). O caso também é investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
"A Polícia Militar não compactua com excessos e desvios de conduta por parte de seus agentes. Todas as imagens relacionadas à ocorrência, incluindo as captadas pelas câmeras corporais utilizadas pelos policiais, são rigorosamente analisadas para adoção das medidas cabíveis", informou a SSP em nota. O g1 e a TV Globo não localizaram as defesas dos policiais até a última atualização da reportagem.



