O pastor João Bosco Cordeiro da Silva, de 68 anos, faleceu na noite da última terça-feira (2) após ser atropelado por uma caminhonete na Avenida Coronel Mâncio Lima, no bairro Formoso, em Cruzeiro do Sul, interior do Acre. O acidente ocorreu quando a vítima saía de uma barbearia na tarde do mesmo dia.
Imagens mostram o atropelamento
O incidente foi registrado por câmeras de segurança. Nas imagens, é possível ver o pastor caminhando próximo à calçada quando o veículo faz uma curva e segue pela rua. Ao se aproximar do idoso, o motorista desvia para o lado da calçada e atinge João Bosco. Com o impacto, ele é lançado para cima e cai desacordado no chão. O condutor fugiu sem prestar socorro.
A vítima foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levada em estado grave ao Hospital do Juruá, mas não resistiu e morreu no início da noite. O velório ocorre nesta quarta-feira (3) na Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Templo Central, em Cruzeiro do Sul, onde o pastor congregava. O sepultamento está marcado para as 17h no Cemitério Jardim da Paz.
Filha relata os momentos antes do acidente
Maria Rocilene, de 46 anos, filha da vítima, contou que o pai também trabalhava como pedreiro e carpinteiro. Naquele dia, ele estava realizando uma obra no quintal da família. Como alguns materiais haviam acabado, familiares saíram para comprar tinta e cimento, enquanto João foi à barbearia cortar o cabelo.
“Como já eram 11 horas, na correria, eu tinha que pegar meu menino na escola, disse pra ele: ‘Pai, lhe deixo lá na barbearia. Quando eu pegar ele [filho] na escola, volto para buscar o senhor. Se o senhor terminar antes de eu chegar, o senhor me liga’”, relembrou Maria.
Ela foi buscar o filho e deixou o pai na barberia. Segundo ela, ele terminou o corte antes do retorno dela, mas não ligou e decidiu ir caminhando para casa. “Deu um certo horário e ele não ligava. E quando fui pegar o telefone para ligar, perguntar se já tinha terminado, uma moça me ligou dizendo que um cara tinha atropelado ele”, disse.
Ao saber do ocorrido, Maria foi para o hospital, mas o pai ainda não havia chegado. Desesperada, ela foi ao local do acidente e descobriu que os médicos tentavam entubar o idoso para levá-lo ao hospital. A filha informou que a pancada na cabeça foi muito forte. “A doutora disse que pela pancada, ele morreu ali mesmo no local. O que estava funcionando era só o coração. O cérebro dele já tinha parado, porque foi muito forte [a queda]”, lamentou.
Motorista se apresenta na delegacia
Após ver o vídeo do acidente, a família decidiu registrar um boletim de ocorrência. Ao chegar na delegacia, encontrou o suspeito do atropelamento acompanhado de um advogado. No local, a família soube que o motorista alegou que atropelou o pastor porque ele estava no meio da rua e acreditava que ele estava bêbado.
“O delegado disse que ia fazer o exame de bafômetro. E ele ia ficar detido lá, mas não sei, ainda não me informaram de nada, se ele está lá detido mesmo, se foi liberado. Não sei como é que está a situação”, afirmou Maria.
A Polícia Civil foi contatada para fornecer atualizações sobre as investigações e se o suspeito se apresentou, mas ainda não houve retorno.
Luto e legado do pastor
A morte do pastor impactou profundamente a família e os amigos em Cruzeiro do Sul. Maria destacou que João era conhecido não apenas pela dedicação ao trabalho como carpinteiro e pedreiro, mas também pela generosidade e carinho com que tratava as pessoas. “Meu pai era uma pessoa muito alegre, muito carismática. Às vezes, dava o que não tinha para ajudar os outros e acabava ficando sem nada”, relembrou.
Ela recordou ainda que o pai participou da construção de importantes espaços públicos do município, como a cobertura da Catedral, a Escola Dom Henrique, o Teatro dos Náuas, o Centro Cultural Cordélia Lima e o Ginásio Coberto. “A maioria das obras de Cruzeiro do Sul ele trabalhou. Meu pai era muito conhecido e muito querido pelos mestres de obra por causa da pessoa boa que ele era”, afirmou.
Nos últimos meses, o pastor vivia um momento de alegria após receber uma indenização relacionada a um acidente de trabalho sofrido anos atrás. Depois de mais de uma década aguardando o pagamento, João utilizou o recurso para construir uma pequena casa nos fundos do terreno onde morava com a filha. “Ele estava muito feliz porque estava construindo a casinha dele e fazendo muitos planos para a vida”, contou Maria.
Mesmo com limitações físicas devido ao acidente anterior e pela idade avançada, o pastor nunca perdeu o amor pela profissão e costumava observar as obras da cidade sempre que passava por elas. “Ele amava o que fazia e tinha muito orgulho da profissão. Quando saíamos de carro, ele ficava olhando para as construções. Acho que era vontade de trabalhar porque gostava muito disso. Trabalhar era uma das coisas que mais amava na vida”, recordou.
Com a perda, projetos que estavam em andamento foram interrompidos. “Os sonhos do meu pai foram cortados no meio por essa tragédia. Nunca esperei que ele fosse morrer desse jeito. A gente sai, anda e espera voltar para casa. Não chegar é algo muito ruim”, desabafou a filha.



