Moradores de Parambu no Ceará viajam até 437 km para perícias do INSS
Parambu: 437 km para perícia do INSS no Ceará

Perícias do INSS obrigam moradores de Parambu, no Ceará, a viajar até 437 km. Um dia de viagem e gastos com hospedagem, alimentação e deslocamento que consomem quase um salário mínimo. Essa foi a realidade enfrentada pela família de Luis Tadeu de Freitas, de 54 anos, para que ele realizasse uma perícia do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Morador de Parambu, no sertão cearense, o idoso teve a perícia agendada em Russas, cidade distante cerca de 437 km. Apesar de haver uma agência do INSS em Parambu, o local não realiza perícias médicas.

“Se tornou muito difícil, muito difícil. A gente torce muito, quer muito que o INSS tenha mais cuidado com isso e procure botar as perícias médicas para um local mais próximo da gente”, desabafou a professora aposentada Antonia Maria, de 61 anos, irmã e cuidadora legal de Luis Tadeu.

Parambu lidera em distância para perícias no Ceará

Em 2025, os moradores de Parambu estiveram na liderança dos deslocamentos para perícias do INSS no Ceará: a cidade teve 1.499 marcações, com média de 212,89 km de distância entre o município e o local da perícia. Desde 2021, Parambu é a cidade com a maior distância média percorrida para perícias no estado. Os dados, do Ministério da Previdência Social (MPS), foram obtidos via Lei de Acesso à Informação pela repórter Gabriela Custódio, do Diário do Nordeste, e cedidos ao g1.

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O Ministério da Previdência Social afirma que, embora exista unidade da Previdência em Parambu, a realização de perícias médicas depende de estrutura específica, agenda pericial ativa e disponibilidade de peritos. A existência de agência não implica oferta de todos os serviços presenciais, especialmente os que dependem de força de trabalho especializada.

No estado do Ceará, 156.371 beneficiários tiveram que viajar para fazer a perícia em outra cidade em 2025. Houve aumento de 192% no número de beneficiários que precisam sair da cidade para esse atendimento desde 2023.

A saga para garantir o benefício

Luis Tadeu de Freitas compareceu à agência do INSS de Russas em março de 2026, acompanhado de motorista, irmão e cuidadora. O grupo precisou chegar um dia antes, pois a perícia estava marcada para as 9h de uma segunda-feira. A família, que vive com dois salários mínimos, gastou quase um salário mínimo (R$ 1.621). “Só de gasolina foram R$ 480”, detalhou Antonia Maria, que não pôde ir por ser cadeirante.

Ela pensou em desistir da consulta devido à distância, mas a falta de comparecimento poderia resultar no bloqueio do benefício. “O dinheiro dele eu gasto com ele, e muitas vezes no final do mês não tenho mais um real. Dependemos literalmente desses dois salários mínimos”, afirmou.

Entendimento judicial sugere limite de 70 km

Não existe lei ou norma que determine limite de distância para perícias do INSS. No entanto, em julho de 2025, a Sétima Turma do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) entendeu que o INSS deve agendar perícias em locais a até 70 km do domicílio dos segurados. A decisão foi tomada em dois processos com deslocamentos excessivos. Esse entendimento não tem efeito de lei, mas serve como referência.

No Ceará, 75.709 perícias foram marcadas a mais de 70 km de distância em 2025.

A advogada Simone Lima, presidente da Comissão de Direito Previdenciário da OAB-CE, explicou que o entendimento judicial não vincula juízes, mas firma precedente regional. “Caso o INSS descumpra, a Justiça pode determinar remarcação, restabelecer benefícios e impor multas.”

Morrem sem ter direito ao benefício

O advogado previdenciarista Marcos Torquato, natural de Parambu, afirma que a situação não é recente. A agência do município foi inaugurada em 2014, mas nunca teve médico perito de forma contínua. “As pessoas morrem acamadas, sem conseguir o benefício. Alguns desistem, morrem sem ter direito.”

Em Tauá, município a 60 km de Parambu, é possível agendar algumas perícias, mas com limitações. Em 2025, Tauá ficou em terceiro lugar no Ceará em grandes deslocamentos, com média de 181,76 km. O MPS informou que a agência de Tauá recebeu três novos peritos e o tempo médio de espera é de 20 dias.

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Distância temporal e física

O aposentado José Gonçalves de Oliveira, de 73 anos, teve perícia marcada em Crateús, a 138 km de Parambu. Solicitado em outubro de 2025, o agendamento foi para setembro de 2026. A família tenta acréscimo de 25% na aposentadoria após ele sofrer um AVC. A neta Érica Oliveira afirma que a logística para levar o avô acamado é difícil e ainda não foi definida.

O MPS informou que o segurado pode solicitar reagendamento pelos canais oficiais, havendo vaga disponível em localidade mais próxima.

Benefícios que exigem perícia médica

Os benefícios que exigem perícia médica são: auxílio-doença, aposentadoria por invalidez, auxílio-acidente, Benefício de Prestação Continuada (BPC), pensão por morte para dependentes inválidos ou com deficiência, e auxílio-reclusão em casos específicos.

O que diz o Ministério da Previdência Social

O MPS afirma que a redução do tempo de espera e a ampliação do acesso à perícia no interior do Ceará são prioridades. Investiu na recomposição da força de trabalho, reorganização das agendas e utilização de unidades regionais. Não há regra específica para limite de distâncias; as marcações ocorrem conforme disponibilidade. O tempo médio de espera caiu de 168 dias (abril de 2025) para 61 dias (abril de 2026).