A Operação Trinus, deflagrada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, trouxe à tona a verdadeira natureza do Baile da Disney, realizado na Vila do João, dentro do Complexo da Maré. Mais do que um evento musical, o baile funk é utilizado como fachada para a venda de drogas, bebidas e mercadorias roubadas, sob a proteção de traficantes armados do Terceiro Comando Puro (TCP). A renda obtida no evento é direcionada para pagar cachês de artistas e custear a propaganda do megaevento, que é considerado um dos maiores em áreas dominadas pela facção.
Baile da Disney: plataforma de monetização do crime
De acordo com a delegada Raíssa Celles, diretora do Departamento de Polícia da Capital, o ambiente festivo serve como disfarce para atividades ilícitas. "Nesse local, onde se finge estar apenas realizando uma festividade para a diversão da comunidade, esse ambiente é utilizado para venda desse material roubado, bebidas alcoólicas, produtos alimentícios, e utilizado pra venda de drogas", afirmou. Para a Polícia Civil, o Baile da Disney é um elemento central na estrutura de lavagem de dinheiro da facção. "O evento, que se tornou referência popular por sua produção temática com decoração, pirotecnia, atrações circenses e personagens infantis, foi identificado pelos investigadores como plataforma de monetização ampla do crime organizado", descreveu a polícia. O baile opera como canal de escoamento imediato de mercadorias roubadas e permite arrecadação concentrada com bebidas, alimentos e espaços sob controle exclusivo da facção.
'Escritórios do crime' na Maré
O delegado Thiago Dorigo, um dos responsáveis pelas investigações, afirmou que as favelas do TCP na Maré se tornaram refúgio para quadrilhas que aplicam golpes pelo telefone ou pela internet. Muitos criminosos abriram verdadeiros 'escritórios do crime' na região. "Então, os mais variados tipos de golpistas e estelionatários hoje saíram do centro da cidade e abriram seus escritórios em diversas comunidades porque eles sabem da dificuldade da polícia para localizar e fazer uma operação de grande porte", explicou Dorigo. A facção lucra com o aluguel de espaços para a prática de crimes, cobrando uma taxa para liberar a atividade criminosa.
Lojas com produtos roubados
Durante a operação realizada na quarta-feira (10), a Polícia Civil encontrou lojas em um centro comercial que vendiam produtos roubados por criminosos do TCP. A organização também mantinha um depósito com os materiais. Até a última atualização, 25 homens haviam sido presos. Segundo Raíssa Celles, foram apreendidos cigarros eletrônicos contrabandeados e celulares de origem ilícita. "No interior delas, foi encontrada uma grande quantidade de cigarros eletrônicos contrabandeados que estavam sendo expostos à venda nessas lojas, além também de uma grande quantidade de celulares de origem ilícita, e pelo menos três celulares roubados", disse a diretora do DGPC.
O delegado Thiago Dorigo explicou que traficantes da Pedreira e da Maré formaram um "consórcio criminoso" para realizar roubos de carga quase diários. "Os traficantes da Pedreira ficavam incumbidos de abordar os caminhões na Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela e trazer para uma dessas comunidades aqui na Maré", disse. A divisão do lucro é pré-definida: 25% para a liderança da Pedreira, 25% para o roubador da Pedreira, 25% para o roubador da Maré e 25% para a liderança do TCP na Maré.
Seis frentes de investigação
A Operação Trinus, conduzida pela 21ª DP (Bonsucesso), dividiu-se em seis frentes de investigação, abrangendo roubo de cargas e lavagem de capitais, roubo e receptação de celulares, tentativa de homicídio contra adolescente, exploração sexual infantil, violência doméstica e posse ilegal de armas, e roubo circunstanciado na Avenida Brasil.
1. Roubo de cargas e lavagem de capitais
A investigação aponta que o TCP realiza ações sistemáticas de interceptação de veículos de carga nas principais vias expressas da capital, como a Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela. Os criminosos usam motocicletas e veículos de apoio para cercar caminhões em movimento, rendendo as vítimas sob ameaça e violência. As mercadorias são levadas para dentro das comunidades dominadas pela facção. Estabelecimentos comerciais da região são utilizados para receptação, armazenagem e revenda das cargas subtraídas, integrando a cadeia econômica do tráfico. A polícia também identificou que o TCP impõe monopólios de internet, botijões de gás e água.
2. Roubo e receptação de celulares
Em junho de 2025, dois homens presos em flagrante por roubo de celular colaboraram com a polícia, fornecendo informações detalhadas sobre o esquema. Um "gerente operacional" fornecia armas e motocicletas roubadas e estabelecia metas de arrecadação. As vítimas eram coagidas a desbloquear os aparelhos no ato do roubo. O TCP estabeleceu uma tabela de recompensas: aparelhos desbloqueados alcançavam até R$ 2.500, enquanto bloqueados valiam entre R$ 300 e R$ 600.
3. Tentativa de homicídio contra adolescente
Em 18 de setembro de 2024, um pai e sua filha adolescente, Valentina Betti Simioni, entraram por engano na Baixa do Sapateiro. Criminosos armados abriram fogo, atingindo Valentina. Ela ficou quase um mês hospitalizada. A polícia identificou dois soldados do tráfico envolvidos no episódio.
4. Exploração sexual infantil
Uma denúncia à 21ª DP revelou a divulgação e troca de material de abuso sexual infantil em aplicativos de mensagens, com vítimas incluindo bebês. Um dos alvos mantinha conversas para combinar encontros com um adolescente de 13 anos. Mandados de busca foram cumpridos para apreensão de dispositivos eletrônicos.
5. Violência doméstica e posse ilegal de armas
Na madrugada de 12 de janeiro, uma mulher foi agredida pelo ex-companheiro ao tentar retirar a filha adolescente de um bar. A investigação descobriu que o agressor possuía armas de fogo sem autorização.
6. Roubo circunstanciado na Avenida Brasil
Em 26 de maio, um casal foi roubado por dois criminosos enquanto trafegava pela Avenida Brasil. Os bandidos usaram violência, incluindo mordidas para arrancar uma aliança. Após o roubo, utilizaram o cartão bancário para comprar uma televisão de R$ 1,4 mil. A análise de links de pagamento levou à identificação de um dos suspeitos.
Ações simultâneas e apreensões
As polícias Civil e Militar iniciaram a Operação Trinus com seis ações simultâneas, visando cumprir 56 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão. As equipes foram recebidas a tiros, e criminosos atearam fogo a barricadas. Escolas e unidades de saúde fecharam preventivamente. Participaram da ofensiva o Bope e a Core, tropas de elite. Foram apreendidos fuzis, granadas, duas estufas de maconha, um laboratório de cocaína e uma "fazenda" de mineração de criptomoedas. A delegada Raíssa Celles afirmou: "Não é apenas o tráfico de drogas que alimenta essas organizações criminosas. Eles fomentam e financiam o roubo de carga".



