Operação Metástase revela Maré como centro logístico do crime no Rio
Operação Metástase: Maré é centro logístico do crime no Rio

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou nesta terça-feira a Operação Metástase, que mira uma quadrilha especializada em roubar medicamentos de alto custo e ocultar as cargas no Complexo da Maré. A ação é mais um capítulo de uma série de investigações que revelam o papel estratégico do conjunto de favelas na engrenagem do crime organizado na cidade.

Maré: centro logístico do crime

Nos últimos meses, operações das polícias Civil e Militar indicam que a Maré não é apenas reduto do tráfico de drogas, mas também um centro logístico para armazenamento e distribuição de cargas roubadas, desmanche e ocultação de veículos, fabricação de drogas sintéticas e abrigo para criminosos de diferentes estados. Com acesso imediato a corredores viários como Avenida Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela, o complexo oferece facilidade para receber e redistribuir cargas roubadas, rotas de fuga e forte domínio territorial do Terceiro Comando Puro (TCP), uma das maiores facções do estado.

Medicamentos contra câncer roubados

Segundo a Polícia Civil, a Operação Metástase revelou que medicamentos oncológicos roubados em diferentes pontos do estado eram levados para a Maré antes de serem revendidos por meio de empresas de fachada a hospitais privados e até unidades públicas de saúde. As investigações apontam que a organização movimentou mais de R$ 33 milhões entre 2025 e 2026.

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Outras operações na região

O combate ao roubo de veículos e cargas tem sido o principal foco das operações na Maré em 2025. Em fevereiro, março e abril, a Polícia Militar realizou incursões de grande porte em comunidades como Vila do João, Vila dos Pinheiros, Baixa do Sapateiro, Timbau, Parque União, Nova Holanda e Conjunto Esperança. Foram apreendidos fuzis, pistolas, granadas artesanais, rádios transmissores e munições, além de centrais de refino de drogas e galpões usados para armazenar materiais ilícitos. Em abril, uma ação encontrou cerca de 200 litros de lança-perfume e insumos para fabricação da droga em um galpão próximo à Avenida Brasil.

Esquema consolidado

As investigações da Operação Metástase reforçam que o esquema se consolidou nos últimos anos. Segundo a Polícia Civil, traficantes armados do TCP interceptavam caminhões nas vias próximas e obrigavam os motoristas a seguir até o interior da Maré. Lá, as cargas eram transferidas para outros veículos, às vezes com uso de empilhadeiras, antes de serem armazenadas e revendidas. Estabelecimentos comerciais da região integravam a cadeia de receptação, funcionando como pontos de armazenamento e comercialização. A facção também ampliou sua influência sobre serviços essenciais, como internet, distribuição de gás e fornecimento de água, fortalecendo uma estrutura paralela de arrecadação.

Baile da Disney financiava o crime

Investigações anteriores apontaram que o Baile da Disney, na Vila do João, desempenhava papel estratégico na estrutura financeira do TCP. A Operação Trinus, deflagrada em junho, concluiu que o evento funcionava como ponto de venda de mercadorias roubadas, arrecadação de recursos e fortalecimento do domínio territorial. Segundo a Polícia Civil, além da comercialização de bebidas e alimentos sob controle do grupo, o dinheiro arrecadado financiava cachês de artistas e atrações que ampliavam a projeção do baile. Imagens mostraram homens armados com fuzis circulando entre o público; em um registro, foram contabilizadas cerca de 40 armas durante um cortejo.

Atuação diversificada do TCP

A Operação Trinus revelou ainda que a atuação da organização ia além do tráfico de drogas, abrangendo receptação de celulares, roubo de cargas, posse ilegal de armas, violência doméstica, exploração sexual infantil e tentativa de homicídio. Em uma das frentes, a polícia identificou grupos em aplicativos de mensagens usados para armazenar e compartilhar material de abuso sexual infantil e apurou suspeitas de aliciamento de um adolescente de 13 anos.

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Reação do tráfico

As operações na Maré costumam provocar reações imediatas dos criminosos. Em março, traficantes atravessaram um ônibus na Linha Amarela e incendiaram barricadas para dificultar o avanço das forças de segurança. No Morro do Timbau, um caminhão foi usado como obstáculo. Episódios semelhantes ocorreram em fevereiro e junho, com intensos tiroteios e barricadas em chamas. Durante uma operação, passageiros na estação Fiocruz do BRT se jogaram no chão para se proteger dos disparos.