Operação Janus: áudios mostram PCC atuando como tribunal e pagamento a policiais
Operação Janus: áudios mostram tribunal do PCC e pagamento a policiais

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) divulgou áudios e mensagens que expõem o funcionamento de uma organização financeira clandestina ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As provas, obtidas na Operação Janus deflagrada na terça-feira (21), mostram empresários e operadores financeiros usando a facção como tribunal para resolver disputas, pagando propina a policiais e movimentando milhões de origem ilícita.

Disputa imobiliária levada ao tribunal do crime

Um dos casos centrais é a briga por um imóvel de luxo na Riviera de São Lourenço, litoral paulista, envolvendo R$ 2 milhões. O empresário Cléber Azevedo dos Santos e Marcelo de Morais Oliveira, preso na operação, recorreram ao PCC em vez da Justiça. Em conversa de 26 de maio de 2023, Cléber afirma: "Agora vou armar com um monte de irmão e no dia nós encostamos lá e quem vai conduzir vai ser o comando." Segundo o MP, a frase mostra submissão à facção.

Em áudio, Cléber pede formalmente a intervenção: "Peço que seja aqui essas ideias para ser resolvida... desde já agradeço a atenção dada pelos irmãos." Outro investigado, Antonio Carlos Sampaio, sugere violência: "Esses cara tá tirando hora que chegar lá vai ficar tudo amarrado no cativeiro."

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Pagamentos a policiais do Deic e outras unidades

As mensagens também revelam pedidos de dinheiro para corromper agentes públicos. Em um diálogo, Cléber escreve a Bruno Ramos Fernandes: "Preciso de 50 mil pra poder mandar pra polícia. Chegando aí separa e me avisa blz." Robson Martins de Souza cobra recursos para quitar pagamentos: "Tem vivo preciso pagar o 39 13 e seccional." Ele detalha: "39 750";"13 750";"Seccional 1500".

Em áudio de julho de 2025, Cléber pede R$ 100 mil em espécie para um cliente: "Aquele meu cliente lá, o Caio, ele precisa de R$ 100 mil aí pra trocar. Quer mandar TED e pegar em vivo, porque ele precisar pagar os polícia do Deic, porque ele teve um problema." O MP afirma que isso reforça indícios de corrupção sistemática.

Estrutura de lavagem de dinheiro

O grupo operava um sistema financeiro paralelo, movimentando recursos do tráfico e outros crimes. Cléber afirma em conversa: "Tem a criptomoeda... e tem a pirâmide né... e o dinheiro dos caras das drogas... pra mim ele pode fazer até dinheiro de avião de jato, de foguete." Ele também oferece serviços a clientes: "Já temos clientes de usina, igreja, bingo, fábrica de cigarro... tudo que precisa de conta pra ser blindado."

Uma mensagem de Antonio Carlos Ubaldo Junior ao líder do PCC Leonardo Monteiro Moja informa divergência em entrega: "A sacola que ele mandou tinha só 498.500." O MP destaca que o grupo movimentava grandes volumes em espécie.

Contadora de Alberto Youssef envolvida

A contadora Meire Poza, ex-funcionária do doleiro Alberto Youssef, aparece em diálogos. Ela afirma receber R$ 70 mil mensais pela exclusividade: "Pela minha exclusividade, o Cléber me paga R$ 70.000 por mês." Em outra troca, orienta a não alterar declaração de Imposto de Renda: "A dele tem umas inconsistências. Nada muito grave, mas tem. Porém acho que nesse momento não é bom mexer." Para o MP, ela auxiliava na ocultação patrimonial.

Proximidade com coronel da PM

Investigação aponta relação entre o grupo e o coronel Luiz Carlos Pereira Martins, que participava de grupo de WhatsApp com Cléber e Robson. Embora as mensagens sejam de cunho social, o MP vê indícios de proximidade que ia além do casual. O coronel se colocava à disposição para intermediar contatos com autoridades, como o então comandante da Rota, coronel José Augusto Coutinho, e o coronel Patrício. Este último aparece em planilha com pagamento de R$ 1.000 em dinheiro. Nenhum policial foi formalmente acusado na operação.

A Operação Janus cumpriu 18 mandados de prisão e 18 de busca, bloqueando até R$ 10 milhões em bens. O g1 procurou as defesas, mas não obteve retorno.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar