Quatro pessoas, incluindo o empresário proprietário de uma distribuidora de bebidas, morreram soterradas na última sexta-feira (31) em uma obra de ampliação no bairro Nova Rosa da Penha II, em Cariacica, na Grande Vitória. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) confirmou que a escavação foi executada fora das normas técnicas, com corte vertical de 90 graus, o que provocou a perda de sustentação do solo argiloso e o deslizamento da barreira de terra.
Como ocorreu o soterramento
Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o grupo realizava a fundação de um muro de arrimo quando o barranco cedeu. As vítimas foram o empresário Vanderson Santana André, de 35 anos, e três pedreiros da mesma família: Ronival Moreira de Jesus, de 48 anos, seu filho Ruan Moreira da Luz, de 31 anos, e o tio Valdomiro Moreira de Jesus, de 61 anos. Todos morreram no local e os corpos foram resgatados pelo Corpo de Bombeiros ainda na tarde e noite do mesmo dia.
A obra estava embargada pela Prefeitura de Cariacica havia cerca de um ano, por irregularidades como falta de licenciamento e ausência de responsável técnico. Segundo a administração municipal, os trabalhos foram retomados de forma clandestina aproximadamente uma semana antes do acidente, sem que as pendências fossem resolvidas.
Vítimas eram conhecidas na comunidade
Ronival, que já foi taxista, deixou esposa e dois filhos. Ruan havia deixado o emprego na Central de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa) para trabalhar com o pai; ele era casado e pai de três crianças, sendo um bebê de sete meses. Valdomiro deixou filha e neto. O empresário Vanderson, proprietário da distribuidora que funcionava há cerca de 15 anos, tinha mais de 150 mil seguidores nas redes sociais e deixou esposa e um filho pequeno.
Horas antes do desabamento, Vanderson publicou vídeos mostrando o andamento da construção. As quatro vítimas foram sepultadas no sábado (2), em cerimônias realizadas em Cariacica.
Interdições e risco de novos deslizamentos
A Defesa Civil municipal interditou três imóveis vizinhos: a própria distribuidora, um galpão ao lado e uma residência na rua de trás. O subsecretário municipal de Defesa Civil, Marcelo Scherrer, afirmou que técnicos identificaram três cenários com risco de movimentação de solo. "Hoje (segunda), nós viemos aqui com engenheiros e geólogos. Já identificamos três cenários com risco de movimentação de solo, que pode acarretar um desabamento. Ainda é precoce dizer que a edificação pode ser liberada", disse. Moradores do prédio interditado foram orientados a deixar suas casas temporariamente, sem previsão de retorno.
Ações emergenciais e investigação
A prefeitura iniciou medidas emergenciais, incluindo isolamento da área, interdição da rua lateral e construção de barreira para evitar infiltração de água da chuva. "Solicitamos à Secretaria de Serviços que fizesse uma barreira na rua lateral onde ocorreu o deslizamento para evitar a infiltração do solo. A interdição será mantida e o nosso laudo vai apontar as intervenções necessárias", explicou Scherrer.
Por ser área particular, os responsáveis pelos imóveis deverão executar as intervenções de estabilização apontadas no relatório técnico, que deve ser concluído até o fim desta semana. A Polícia Civil, por meio da Delegacia Especializada de Acidentes de Trabalho (Deat), investiga o caso. A Polícia Científica realizou necropsia dos corpos no IML de Vitória. O Crea-ES vistoriou o local e constatou que a obra era executada sem responsáveis técnicos e em desacordo com as normas de segurança.
Falta esclarecer a responsabilização criminal pela retomada irregular da obra, o laudo pericial definitivo sobre as causas do desabamento e o cronograma para estabilização da encosta, que permitirá o retorno dos moradores.



