A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e o Ministério da Justiça localizaram, durante a Operação que resultou na apreensão de seis adolescentes, materiais de apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil. Os jovens são investigados por induzir uma menina de 13 anos ao suicídio em Naviraí, município do interior do estado.
Operação em cinco estados
Os mandados foram cumpridos simultaneamente no Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Pará, Ceará e Minas Gerais. A investigação, conduzida pela Polícia Civil sul-mato-grossense com apoio do Ministério da Justiça, teve início em 22 de julho, após a morte da adolescente.
De acordo com as autoridades, o grupo utilizava a estética e a ideologia neonazista como ferramenta de radicalização de jovens nas plataformas Discord e Telegram. Nesses ambientes virtuais, promoviam discursos de ódio, misoginia e desafios de violência extrema, direcionados especialmente a meninas.
Live de 45 minutos terminou em tragédia
A vítima foi coagida a tirar a própria vida durante uma transmissão ao vivo no Discord que durou cerca de 45 minutos. Antes do desfecho fatal, a menina recebeu o desafio de torturar e matar um gato. Como não conseguiu cumprir a exigência, passou a ser pressionada pelos demais participantes, que acompanhavam e incentivavam o ato.
Durante a mesma transmissão, outra adolescente também foi induzida a se automutilar e a cometer suicídio, mas conseguiu abandonar a sala antes de consumar o ato. As autoridades alertam que o grupo mantinha uma lista com nomes e datas de futuras potenciais vítimas, o que foi descoberto após a apreensão de um adolescente de 14 anos no Rio de Janeiro.
Mudança no perfil dos crimes virtuais
Os investigadores destacaram uma alteração preocupante nas dinâmicas de violência digital contra menores. "Hoje observamos uma inversão nas dinâmicas de violência digital: não se trata mais apenas de adultos aliciando menores, mas de próprios menores aliciando e coagindo outros menores", afirmaram em coletiva de imprensa.
As comunidades operavam em servidores fechados, com exigência de participação em "desafios de violência extrema". Os crimes eram cometidos simultaneamente no Discord e no Telegram, o que facilitava a disseminação do conteúdo e a captação de novas vítimas.
Falhas nas plataformas e no ECA Digital
O Ministério da Justiça apontou a falta de mecanismos eficazes de proteção por parte das redes sociais. Funcionalidades como mensagens diretas e retransmissões de vídeo sem filtros permitiram que as transmissões ocorressem sem interrupção pelas ferramentas de segurança das plataformas.
As autoridades também criticaram a ineficiência dos mecanismos de supervisão parental obrigatórios pelo ECA Digital. "Todos os participantes eram crianças e adolescentes, com exceção de um único responsável pela organização de um desses eventos, que tinha mais de 18 anos. Está sendo determinada a suspensão desses servidores do Discord, dos canais do Discord, em que aconteceram esses episódios", informaram.
Orientações para busca de ajuda
Para quem precisa de apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo número 188, válido em todo o território nacional. O site Mapa da Saúde Mental também pode ser utilizado para encontrar serviços de acolhimento gratuitos ou de baixo custo.
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que fazem acolhimento sem necessidade de agendamento. Os postos de saúde também podem realizar consultas com enfermeiras para um primeiro atendimento em momentos de sofrimento.
Instituições sem fins lucrativos como a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio, o Instituto Vita Alere, a Rede Pode Falar (voltada a jovens de 13 a 24 anos) e o Instituto Bia Dote oferecem apoio e informação.



