Um estudo divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança revela que 93,9% das mortes por intervenção de agentes de segurança pública na Bahia em 2025 são de pessoas negras. O percentual supera a proporção de negros (pretos e pardos) na população do estado, que é de 79,7%, segundo o IBGE.
Dados do estudo 'Pele Alvo'
Intitulado 'Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã', o levantamento analisa dados de 2025 em nove estados: Bahia, Amazonas, Ceará, Pará, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo. Na Bahia, dos 365 dias do ano passado, 346 tiveram registros de mortes provocadas por agentes públicos de segurança. Em números absolutos, o total de mortos por intervenção policial no estado chegou a 1.243 pessoas.
Perfil das vítimas
A maioria das vítimas são jovens de até 29 anos, do sexo masculino, que vivem em periferias e favelas. Dos mortos, 1.043 tinham entre 18 e 29 anos, 152 entre 12 e 17 anos, e 280 entre 30 e 39 anos. Para Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança, os números demonstram um padrão. 'Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias', afirmou.
Risco quatro vezes maior para negros
O estudo também aponta que pessoas negras têm quatro vezes mais risco de serem mortas pela polícia do que as brancas. Larissa Neves, pesquisadora do Observatório de Segurança da Bahia da Iniciativa Negra, relaciona os dados à herança da escravidão. 'O Estado não promoveu políticas de reparação ou acesso à cidadania para a população negra. Ao contrário disso, consolidou mecanismos muito mais de controle social para os territórios e populações negras, substituindo formas explícitas de dominação por outras mediadas pelo sistema penal e também pelas instituições de segurança pública', afirmou.
Racismo estrutural e letalidade
Neves destaca que a estrutura social, baseada em conceitos racistas, define quem é alvo da violência policial. 'A gente está falando de um processo que está ligado ao racismo estrutural que vai organizar historicamente as instituições e definir quais corpos são percebidos como perigosos, suspeitos, elimináveis, matáveis', disse. Este é o quinto ano consecutivo que a Bahia contabiliza mais de mil mortos por intervenção policial.
Disputas territoriais agravam violência
Dos 417 municípios baianos, apenas 12 concentram metade das vítimas em 2025. Mais de 20 facções criminosas disputam o domínio de territórios, o que, segundo Neves, coloca os jovens em dupla vulnerabilidade. 'A juventude negra vai ocupar uma posição particularmente muito vulnerável nesse cenário: seja como principal alvo da violência armada, vítima da violência produzida pelas respostas estatais que são baseadas no confronto e na militarização', explicou.
Críticas às políticas de segurança
Neves critica o investimento em policiamento ostensivo e armamentos, afirmando que essas medidas não reduzem a letalidade. 'Não têm se traduzido necessariamente em redução da violência letal. Pelo contrário, em muitos contextos, observamos uma intensificação da letalidade policial, especialmente aqui no caso da Bahia', disse. Ela defende políticas públicas integradas, com foco em prevenção, redução da desigualdade e fortalecimento das redes de proteção social, incluindo educação, cultura, trabalho, saúde mental e assistência social, além de mecanismos de controle externo da atividade policial.
O g1 entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) para comentar as medidas de redução da letalidade, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.



