O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) não são apenas facções criminosas: são organizações que movimentam bilhões de reais, dominam territórios dentro e fora do Brasil, infiltram-se em setores econômicos e capturam contratos públicos. O PCC conta com mais de 40 mil integrantes, enquanto o CV avança sobre comunidades e rotas internacionais do narcotráfico. Ao menos quatro em cada dez brasileiros reconhecem a presença do crime organizado onde moram, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha.
Brasil Adiante debate soluções integradas
O terceiro encontro do ciclo Brasil Adiante, promovido pelo Estadão, discutirá propostas para enfrentar esse desafio. A série de eventos, que ocorre até agosto, busca construir uma agenda executável para os primeiros 24 meses do próximo governo. O debate sobre segurança pública e crime organizado será realizado em 23 de julho, no Espaço JK Eventos, em São Paulo, com transmissão ao vivo.
PCC movimenta R$ 10 bilhões por ano
O crescente tráfico internacional de cocaína impulsiona o avanço das facções. Estimativas indicam que o PCC movimenta cerca de R$ 10 bilhões anuais, em esquemas sofisticados de logística e lavagem de dinheiro. “O PCC passou a funcionar como matriz de um modelo de negócio replicável, que outras organizações regionais adotaram, com ou sem vínculo hierárquico direto”, afirma o promotor Juliano Atoji, do Gaeco do Ministério Público paulista.
Comando Vermelho expande domínio territorial
Mesmo facções que priorizam o controle territorial, como o CV e o Terceiro Comando Puro (TCP), articulam-se em teias sofisticadas pelo Brasil. O CV já é a principal força na Amazônia e tem ligações com crimes ambientais, como garimpo e grilagem. No Rio de Janeiro e no Ceará, o CV copia a milícia, extorquindo moradores com taxas de van, gás e internet.
Lavagem de dinheiro usa fintechs e mercados de alta liquidez
A Operação Carbono Oculto, que desvendou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis ligado ao PCC, expôs um padrão replicado por outras organizações. Entre os pontos comuns estão o uso de “laranjas” e o foco em mercados de alta liquidez, como combustíveis e imobiliário. Ganhou força também o uso de fintechs e bancos digitais, sobretudo no vácuo regulatório das “contas-bolsão”, alvo de ofensiva do Banco Central.
Especialistas defendem integração e inteligência
Para combater a sofisticação do crime, especialistas defendem maior integração entre órgãos de controle, reguladores e investigação, como Coaf, ANP, Anatel e ministérios públicos estaduais. O compartilhamento em tempo real de bancos de dados entre polícias e o uso de inteligência artificial podem ajudar no rastreio de fluxos suspeitos. “Para combater esse tipo de criminalidade é preciso chegar antes, ter política pública para que essa situação não ocorra”, afirma a desembargadora Ivana David, do TJ-SP. “Só tirar a droga e o dinheiro já não basta.”
Infiltração no Estado e cooptação de agentes
A cooptação de agentes públicos e a infiltração na política institucional são características centrais das facções. O promotor Atoji destaca que o papel federal ideal é dar musculatura financeira, tecnológica e diplomática à atuação estadual, sem substituí-la. “O ponto central é combater a cooptação de agentes públicos, característica inerente a toda organização criminosa.”
Violência realocada e novos desafios
Apesar da sofisticação financeira, a violência nas ruas não desapareceu. “Foi realocada: de instrumento de enfrentamento generalizado para ferramenta cirúrgica de manutenção de poder e de mercado”, explica Atoji. Exemplos recentes incluem o assassinato do empresário Antonio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do PCC, fuzilado no Aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024, e a execução do ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes, em Praia Grande (SP).
Programa federal e experiências internacionais
Em maio, o governo lançou o programa Brasil Contra o Crime Organizado, que prevê segurança máxima em 138 presídios. No entanto, especialistas apontam a ausência de medidas de retomada de controle territorial. O analista Alessandro Visacro cita a experiência de Cali, na Colômbia, que usa inteligência e compartilhamento de dados para recuperar áreas dominadas pelo crime. “É fácil para a administração federal manter essa ‘batata quente’ no colo do governador”, afirma Visacro.
Cooperação internacional e fronteiras
O mapeamento de aproximadamente 16 mil quilômetros de fronteira é um desafio para impedir a entrada de armas e drogas. PCC e CV importam cocaína de Bolívia, Peru e Colômbia. Recentemente, os EUA classificaram PCC e CV como terroristas, medida vista com ressalvas. Para Atoji, a cooperação técnica horizontal é mais eficaz: “O ponto central é que funcione como parceria entre iguais, com fluxo de informação em via dupla.”



