As gigantes de tecnologia dos Estados Unidos acumulam uma dívida oculta estimada em US$ 1,65 trilhão, segundo estudo divulgado nesta quarta-feira pela consultoria Gray & Company. O montante inclui obrigações financeiras que não aparecem nos balanços patrimoniais tradicionais, como arrendamentos operacionais, compromissos com pensões e garantias contratuais.
Composição da dívida não contabilizada
De acordo com o relatório, a maior parte desse valor — cerca de US$ 1,2 trilhão — refere-se a arrendamentos operacionais de longo prazo para imóveis, data centers e equipamentos. As empresas de tecnologia frequentemente optam por arrendar em vez de comprar ativos fixos para manter a flexibilidade financeira, mas essas obrigações são exigíveis e representam riscos reais.
Outros US$ 350 bilhões vêm de compromissos com planos de pensão de funcionários e benefícios pós-emprego, enquanto US$ 100 bilhões adicionais são garantias contratuais para fornecedores e parceiros. O estudo analisou as 20 maiores empresas de tecnologia listadas nos EUA, incluindo Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta.
Impacto sobre investidores e reguladores
“Essa dívida oculta distorce a real alavancagem financeira das big techs e pode surpreender investidores em momentos de estresse econômico”, afirmou John Gray, CEO da consultoria, em comunicado. “Os reguladores também precisam ficar atentos, pois essas obrigações podem representar riscos sistêmicos se não forem devidamente divulgadas.”
O estudo destaca que, se essa dívida fosse contabilizada nos balanços, a relação dívida/EBITDA das empresas analisadas saltaria de uma média de 0,8 para 2,3 vezes. Para efeito de comparação, o setor de telecomunicações, conhecido por seu alto endividamento, apresenta relação média de 2,5 vezes.
Resposta das empresas
Procuradas, a Apple e a Microsoft não comentaram o estudo. A Amazon, em nota, afirmou que “os arrendamentos operacionais são uma prática contábil padrão e amplamente divulgada nos relatórios financeiros, e não representam dívida oculta”. A Alphabet e a Meta também não se manifestaram até o fechamento desta edição.
A Associação Nacional de Contabilidade dos EUA já havia alertado, em 2024, que as regras atuais permitem que empresas omitam obrigações significativas dos balanços, dificultando a análise de risco. A Securities and Exchange Commission (SEC) estuda novas exigências de divulgação para arrendamentos e contratos de longo prazo.
Contexto econômico
O valor de US$ 1,65 trilhão equivale a cerca de 7% do PIB dos Estados Unidos e supera a dívida pública de países como França e Itália. As big techs, que detêm grande poder de mercado e fluxos de caixa robustos, historicamente têm baixo endividamento explícito, mas o estudo revela que a alavancagem real é maior do que aparenta.
Especialistas apontam que, em um cenário de juros elevados, o custo dessas obrigações pode se tornar um fardo. “Empresas como a Amazon, com enormes compromissos de arrendamento de data centers e armazéns, são particularmente vulneráveis a aumentos nas taxas de juros, pois os contratos de arrendamento são reajustados periodicamente”, explicou Maria Silva, analista do Bank of America.



