Facções brasileiras se enraízam na Guiana Francesa, aponta estudo
Facções brasileiras se enraízam na Guiana Francesa

Um estudo do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) em parceria com a Direção dos Serviços Penitenciários do Ultramar (DSPOM), publicado em março de 2025, revela que as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) consolidaram presença na Guiana Francesa, território ultramarino francês que faz fronteira com o Amapá. O relatório, assinado pelos pesquisadores Gabriel Feltran, Gérard Pescheux e Olivier Desternes, aponta que essa expansão ocorreu por meio de facções locais do Amapá, como a Família Terror do Amapá (FTA) e Amigos para Sempre (APS).

Enraizamento local e perfil multicultural

Segundo os autores, um dos desenvolvimentos mais significativos é o enraizamento local dessas redes. As facções não são mais compostas apenas por brasileiros, mas também por presos franceses, muitos deles oriundos de famílias franco-brasileiras. Essa composição multicultural se reflete nos idiomas usados: francês, português e “portunhol”, mistura de português e espanhol. Para os pesquisadores, essa evolução representa o surgimento de uma forma de crime considerada “endógena” no território francês.

O relatório também relaciona os conflitos entre facções às taxas de homicídio. Na Guiana Francesa, onde a taxa de homicídios é considerada a mais alta entre todos os territórios da França, o perfil das vítimas reforça essa hipótese: em sua maioria jovens estrangeiros, frequentemente mortos por armas de fogo e conhecidos pelos serviços judiciais. De acordo com os autores, esse padrão reforça a hipótese de uma contribuição significativa das facções brasileiras para o aumento das taxas de homicídio na Guiana Francesa.

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Amapá como fronteira estratégica

O município de Oiapoque, que faz fronteira direta com a Guiana Francesa e possui relevância política por conta da possibilidade de exploração de petróleo na margem equatorial, é considerado um dos pontos mais sensíveis. A Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Amapá (Sejusp) acompanha de perto essa movimentação. “A Guiana Francesa passa a ser um território disputado pelas facções, em razão da logística ligada ao tráfico internacional, não apenas de armas, mas também de drogas. Os ilícitos despertam interesse pela logística facilitada pela grande quantidade de rios e pela dificuldade de acesso e fiscalização”, explicou o secretário de Segurança Pública, Cézar Vieira ao g1.

Dados comparativos reforçam esse cenário. A pesquisa mostra que entre 2019 e 2020, a Guiana Francesa registrou a maior quantidade absoluta de homicídios (66) e a maior taxa proporcional, de 11,6 por 100 mil habitantes, entre os territórios ultramarinos franceses. O perfil das vítimas mostra vulnerabilidade social e forte presença de estrangeiros: 54% eram estrangeiros e 68% estavam desempregados. O uso de armas de fogo é predominante: 58% dos homicídios na Guiana Francesa ocorreram com esse tipo de arma, índice superior ao de Guadalupe (49%) e muito acima de territórios fora das Américas, como Mayotte (5%).

Presença no sistema prisional

Dados do Centro Penitenciário de Remire-Montjoly, compilados no relatório CNRS/DSPOM, mostram que o enraizamento das facções na Guiana Francesa se reflete no sistema prisional. A FTA é a facção com maior número de membros (54 em 2024) e também com maior presença de franceses (14 em 2024). O CV também apresenta participação significativa de franceses, sendo 6 em 2024 e 17 entre os encarcerados no período de 2020 a 2024. O PCC tem presença menor, mas registra franceses entre os encarcerados, sendo 1 entre 2020–2024. A APS permanece exclusivamente com brasileiros, sem membros franceses identificados.

No Amapá, a atuação dos grupos locais como APS, FTA e União dos Criminosos do Amapá (UCA), concentrada em Laranjal do Jari, é frequente, mas controlada. Vieira afirma que não há domínio territorial consolidado. “Há tentativas de domínio por facções externas, como PCC e Comando Vermelho, mas a estrutura de segurança pública tem impedido avanços. Quando facções externas tentam se instalar, a resposta é imediata: investigação, operações de neutralização e retirada de circulação, sempre com respaldo judicial", completou.

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Segurança no Amapá

Para conter esse avanço das organizações criminosas dentro do Amapá, o governo estadual afirma ter adotado medidas de prevenção e repressão. Vieira destaca que o estado tem buscado impedir o domínio territorial das facções. “No Amapá, a estratégia adotada pelo governo é rigorosa, criteriosa e eficiente, com investimentos e integração das forças de segurança pública. Isso tem impedido o domínio territorial. Não há áreas com grupos criminosos em que a segurança pública não esteja presente”, contou Cézar.

Segundo o secretário, o trabalho envolve patrulhamento urbano, rural e fluvial, além de capacitação contínua e uso de inteligência. “Temos capacitações contínuas, efetivo bem treinado, investimentos em inteligência e tecnologia de investigação. Há patrulhamento em rios, áreas urbanas e rurais, especialmente em municípios de fronteira como Oiapoque e Laranjal do Jari [...] Há cooperação com a Guiana Francesa, por meio do Centro de Cooperação Policial, com trânsito rotineiro de informações e articulação direta com o governo francês. Isso evita burocracia e agiliza investigações e prevenção”, relatou.

Nos últimos anos, os fluxos de migração ilegal na fronteira franco-brasileira têm ganhado maior visibilidade. De acordo com o Plano de Desenvolvimento e Integração da Faixa de Fronteira do Estado do Amapá (2024), o estado configura-se como um dos principais espaços de trânsito de estrangeiros no Brasil. Entre 2019 e 2023, foram apresentados 401 imigrantes ilegais à sede da Polícia Federal, com destaque para 2021, quando a Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 334 detenções. Esses números reforçam a percepção de que a fronteira é não apenas um ponto de passagem para facções criminosas, mas também um espaço de intensa circulação de estrangeiros em situação irregular, o que contribui para a complexidade da segurança pública na região.

Classificação como terroristas pelos EUA

No dia 5 de junho de 2026, o PCC e CV passaram a ser oficialmente classificadas como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos. A decisão havia sido anunciada previamente pela gestão do presidente Donald Trump em 28 de maio e, desde então, o governo brasileiro mantém conversas diplomáticas com autoridades americanas na tentativa de reverter a medida. Analistas apontam que a nova classificação pode trazer sanções econômicas e prejudicar a troca de informações de inteligência entre os dois países. Já auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que, neste momento, não há risco de operações militares americanas em território brasileiro.

Em comunicado, os EUA afirmaram que CV e PCC estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e disseram que os grupos “comandam milhares de integrantes” e são responsáveis por “ataques brutais” contra policiais, autoridades públicas e civis. O pesquisador Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), afirma que há risco real de sanções a instituições financeiras e a companhias instaladas no Brasil. "Se investigações brasileiras, como Carbono Oculto [operação da Polícia Federal que investiga práticas de lavagem de dinheiro conduzidas pelo crime organizado], ou outras investigações feitas pelos Estados Unidos identificarem instituições financeiras brasileiras que, por alguma forma, passaram recurso do PCC ou do CV, podem sofrer sanções diretas", explicou.