Testemunha revela suposto padrão de envenenamento
Um estudante de medicina de 38 anos, que preferiu não ser identificado, prestou depoimento no inquérito que investiga a morte do policial militar José Maria Alexandre da Silva Júnior, de 40 anos. O PM foi encontrado morto com sinais de envenenamento no apartamento da ex-companheira Helen Kelly de Lima Pedrosa, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. A mulher, de 45 anos, foi presa preventivamente em 22 de julho após se jogar do 4º andar de um prédio para evitar a prisão e está internada sob custódia no Hospital da Restauração. A defesa nega o crime e alega que ela era vítima de violência doméstica.
Em seu depoimento à polícia, o estudante afirmou que manteve um relacionamento de quase um ano com Helen e também a acusa de tentar envenená-lo. Ele relatou ter sido dopado por ela em pelo menos três ocasiões. Em entrevista à TV Globo, o ex-namorado contou que Helen era extremamente ciumenta e que sofreu diversas agressões durante o relacionamento. "A gente começou a se dar muito bem no começo. Nos três primeiros meses, a gente não saía muito em público. Quando a gente começou a sair, ela se mostrou uma pessoa muito agressiva, começou a ter crises de ciúmes, me agredia fisicamente e verbalmente, na frente de todo mundo, com tapas, insultos, puxava a minha camisa, jogava bebida em mim", declarou.
Três episódios de dopagem relatados
O estudante detalhou que, em três ocasiões, passou mal após ingerir bebidas oferecidas por Helen, com queda de pressão, vômitos e fortes dores abdominais. Em um dos episódios, após uma discussão motivada por ciúmes em um bar, ele recusou um drink porque iria dirigir, mas aceitou um energético oferecido por ela. Mesmo se sentindo mal, conseguiu concluir o trajeto até sua casa. Em outra ocasião, ele se atrasou para um encontro e, ao chegar ao prédio de Helen, ela não estava. Ele a encontrou em um posto de gasolina próximo, onde ela entrou na loja de conveniência e voltou com uma lata de refrigerante aberta. "E eu tomei um pouco. A gente ficou naquele clima chato, chamei ela, botei no meu carro, deixei ela na frente do prédio e fui para casa. Quando chegou perto do Shopping Guararapes, eu comecei a ter queda de pressão, dores abdominais, ânsia de vômito. Quando cheguei em casa, fiquei 45 minutos vomitando sem conseguir respirar e fui socorrido pela minha vizinha", relatou.
Gravador no carro e acusações falsas
O estudante também afirmou que, durante o relacionamento, começou a ouvir o barulho de um apito dentro de seu carro. Ao comentar com Helen, ela confirmou ter instalado um gravador para saber se ele a traía. Após o fim do namoro, Helen ficou com o veículo. Quando ele ameaçou registrar um boletim de ocorrência para recuperá-lo, ela teria dito que faria uma denúncia de violência doméstica contra ele. "Depois que ela abriu uma medida protetiva contra mim, eu recebi uma mensagem no meu celular dizendo que eu tinha que ficar 200 e alguns metros de distância dela. Eu estava trabalhando, eram 11h30 da noite, parei numa loja de conveniência para comprar uma água mineral. [...] O segurança do posto era um dos amigos dela e avisou que eu estava lá. Ela sai da casa dela e vem correndo para onde eu estava e chama a polícia para dizer que eu tinha quebrado a medida protetiva", contou. A denúncia resultou em uma prisão de aproximadamente três meses.
O estudante afirmou ainda que Helen criou vínculo com um dos policiais que atuaram na ocorrência e passou a utilizá-lo para persegui-lo. Ele disse que voltou a ser preso por cerca de cinco meses, também por suposto descumprimento da medida protetiva. Nesse período, Helen teria oferecido dinheiro para o policial assassiná-lo. "Ela mandou que o policial que estava ajudando ela, que ela conheceu no posto, mandar me assassinar. Ela queria dar R$ 5 mil ao policial para ele me assassinar. Ele não quis. Foi uma das sortes que eu tive para estar hoje aqui contando essa história", declarou. O estudante continua usando tornozeleira eletrônica e responde a processos decorrentes das acusações. "Vai fazer um ano agora em agosto que aconteceu e eu ainda não pude trabalhar. Não posso ir a uma praia, um dentista, um mercado, eu não posso viver minha vida normal porque eu fui vítima de uma acusação falsa, que ela fez contra mim. Passei oito meses preso, mesmo provando que eu não agredi ela", afirmou.
Padrão de comportamento e depoimentos de testemunhas
A advogada Emilly Amaral, que representa o estudante, disse que outras testemunhas relataram à polícia um suposto padrão de comportamento atribuído a Helen. "No momento, o que se sabe, de acordo com todas as testemunhas, é que ela tinha o costume de dopar ex-companheiros ministrando doses altas de clonazepam. Houve o ex-companheiro dela, que ela chegou a dopar várias vezes, e uma amiga dela chegou à delegacia e fez um depoimento contando o que ela costumava fazer com ele dopando para pegar o celular dele, com essa situação de controle. Ela também fez com o ex-marido, pai da filha dela. Tem um boletim de ocorrência de agressão e também tem contra o PM", informou.
Detalhes do inquérito e laudos periciais
De acordo com o documento policial, quando José Maria chegou ao apartamento, a polícia disse que o PM estava "deitado no chão no quarto de Helen, de bruços, ao lado da cama e que na sala haviam duas taças". Na mochila do PM, a polícia encontrou fardamento, uma faca peixeira, uma porção de maconha e medicamentos. O documento revela que, apesar de haver medida protetiva, o casal estava se reconciliando. Helen afirmou que, quando José Maria chegou, ele perguntou se havia comida e energético, e ela colocou na mesa. Em determinado momento, José Maria pediu para Helen pegar gelo, e quando ela voltou, notou que ele havia trocado as taças. Helen disse que marca suas taças com um ponto para saber com qual copo está bebendo. Quando voltou, notou a mudança e pediu que ele colocasse a bota na varanda, acreditando que ele havia colocado algo na bebida. Enquanto ele ia, ela destrocou as taças para que a taça marcada ficasse com ela.
Os laudos toxicológicos e químicos revelaram que a taça de Helen continha apenas sibutramina, um inibidor de apetite. Já a taça do PM continha clonazepam e cafeína. O exame de sangue da vítima também confirmou a presença de clonazepam e cafeína. Inquilinos do apartamento onde Helen morava contestaram a versão da marcação das taças, afirmando que não tinham conhecimento de qualquer identificação na louça.
Defesa de Helen alega violência doméstica e morte natural
O advogado Rafael Nunes, que defende Helen, afirmou que ela e o PM passaram cerca de seis meses juntos e que, desde março, ela era vítima de violência doméstica e possuía medida protetiva contra o policial. O relacionamento era conturbado, e apesar da decisão judicial, o PM voltou a procurá-la insistentemente. Na madrugada do fato, foi autorizado a subir ao apartamento. "A minha cliente saiu de vítima de violência doméstica para possível assassina. A prisão dela foi de forma errônea. Não tem fundamentação jurídica que consiga subsidiar o decreto preventivo, apressado, tanto é que ela se desesperou e pulou do quarto andar", disse. Ele também afirmou que as taças não foram periciadas, apenas o líquido contido nelas. "Perícia completamente deficiente porque se esbarrou na primeira etapa que é apenas da identificação dos agentes. A segunda fase está na confirmação e a terceira fase está no quantitativo. Até o presente momento não tem morte esclarecida a sua causa", disse. Uma ex-amiga de Helen, Adriana, teria dito que ela tinha o hábito de dopar os parceiros, mas a defesa acredita em morte natural. "Acreditamos em morte natural. Ela não queria matar ele e ele nem queria matar ela. O que aconteceu naquele momento, só os dois sabem e ele não está mais aqui", concluiu o advogado.
Relembre o caso
- Na noite de 11 de junho, o PM José Maria Alexandre da Silva Júnior morreu após passar mal na casa da ex-namorada Helen Kelly de Lima Pedrosa, em Boa Viagem.
- Ele foi envenenado, conforme o Boletim de Ocorrência.
- O cabo era do Regimento de Polícia Montada.
- Segundo a defesa, Helen era vítima de violência doméstica desde março e possuía medida protetiva contra o PM.
- Helen percebeu a troca das taças e as destrocou antes de beber.
- O caso é investigado pela 3ª Delegacia de Homicídios como "morte a esclarecer".
- Em 22 de junho, Helen se jogou do 4º andar para evitar a prisão e foi internada sob custódia.



