A confirmação de que o corpo encontrado em uma área de mata em Angra dos Reis (RJ) pertence à cozinheira Berenice Ramos de Aguiar, de 60 anos, encerra um capítulo importante de uma investigação que mobilizou as polícias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Desaparecida desde o fim de junho em Ubatuba, no Litoral Norte de SP, Berenice foi vítima de um caso marcado por contradições, provas periciais e a prisão temporária de sua ex-patroa, a empresária Eliane Alves dos Santos, de 46 anos.
Reconhecimento do corpo
O corpo de Berenice foi reconhecido pelo próprio filho ainda na noite da sexta-feira (17). Principal investigada pelo crime, a patroa deve prestar um novo depoimento nos próximos dias. O g1 reuniu a cronologia de todo o caso. Relembre abaixo.
Sumiço e o conflito trabalhista
Berenice Ramos de Aguiar foi vista pela última vez no dia 30 de junho, no bairro Ubatumirim, em Ubatuba. Ela trabalhava há cerca de quatro meses no restaurante de Eliane e morava em uma casa próxima ao estabelecimento. Segundo a família, a cozinheira planejava deixar o emprego e voltar a morar em Igaratá (SP), motivo pelo qual buscava uma rescisão amigável do contrato de trabalho.
Em um áudio gravado nos primeiros dias das buscas, Eliane afirmou ao filho de Berenice, José Carlos de Faria, que havia pago R$ 2,6 mil referente ao acerto trabalhista e deixado a funcionária em um ponto de ônibus, alegando que ela seguiria para a Praia das Toninhas. No entanto, funcionários do restaurante relataram à polícia a existência de desentendimentos anteriores e episódios de agressão entre as duas.
Contradições e a operação
A investigação da Polícia Civil, por meio da DIG de São Sebastião, identificou rapidamente inconsistências no depoimento da empresária. Inicialmente, Eliane disse que levou Berenice até as Toninhas, mas depois mudou a versão, afirmando ter deixado a idosa no trevo de Ubatumirim. Embora ela tenha declarado que voltou para casa após a carona, imagens de câmeras de segurança e registros de radares mostraram que sua caminhonete preta seguiu em direção a Paraty (RJ) pela Rodovia Rio-Santos, retornando apenas horas depois.
Diante das evidências, foi deflagrada a operação “Último Rastro”. No momento da abordagem, a patroa tentou se desfazer de um celular, arremessando-o na mata. Na casa da suspeita, foram apreendidas três armas de fogo registradas e dois celulares. A caminhonete de Eliane foi encontrada sem placas e com marcas de reparos recentes compatíveis com danos provocados por disparos de arma de fogo. Eliane foi presa temporariamente no dia 10 de julho e a Justiça manteve a detenção após audiência de custódia.
Sangue no veículo e buscas
A investigação ganhou novos contornos quando cães farejadores da Polícia Militar apontaram a presença de sangue no veículo da suspeita nesta sexta-feira (17). Peritos utilizaram o reagente químico luminol, que confirmou vestígios de material biológico, com maior concentração encontrada no banco do carona.
Com base no trajeto percorrido pela caminhonete, a polícia delimitou uma área de busca de aproximadamente 93 quilômetros entre Ubatuba e Angra dos Reis. Equipes do 3º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) e da Polícia Ambiental concentraram os trabalhos em regiões de difícil acesso.
O encontro do corpo e a identificação
Na tarde de sexta, um corpo feminino foi localizado em uma região de mata na localidade de Serra d'Água, às margens da Estrada de Lídice, em Angra dos Reis. O cadáver estava em uma área íngreme, preso a uma árvore, o que exigiu que o Corpo de Bombeiros utilizasse técnicas de rapel para a retirada. Devido ao avançado estado de decomposição, a identificação oficial pelo Instituto Médico Legal (IML) pode levar até três dias, utilizando exames de impressões digitais, arcada dentária ou DNA.
Contudo, o filho de Berenice realizou um reconhecimento inicial por meio de uma fotografia de uma tatuagem de borboleta que a vítima possuía. A Polícia Civil confirmou na manhã deste sábado (18) que o corpo é de fato da cozinheira. Eliane continua presa e deve ser ouvida novamente pelos investigadores no início da próxima semana, em Caraguatatuba. A defesa da empresária afirmou que só se manifestará após ter acesso integral ao processo.



