O Brasil registrou a primeira queda no número de estupros desde o início da pandemia de Covid-19, com uma redução de 4,7% em 2025 em comparação com o ano anterior, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). No entanto, especialistas alertam que a diminuição pode refletir uma subnotificação dos casos, e não uma redução real da violência sexual.
Dados mostram queda inédita
De acordo com o FBSP, foram registrados 66.020 estupros em 2025, contra 69.280 em 2024. Esta é a primeira vez que o indicador apresenta retração desde 2020, quando os números começaram a subir durante a pandemia. Apesar da queda, os números ainda são superiores aos registrados antes da crise sanitária: em 2019, foram 61.570 casos.
A pesquisa considera tanto estupros consumados quanto tentados, e inclui vítimas de todas as idades. A maioria das vítimas continua sendo mulheres e meninas: 85% dos casos têm vítimas do sexo feminino, e 53% das vítimas têm até 13 anos.
Especialistas questionam queda real
Para a socióloga e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), Maria Fernanda Tourinho Peres, a queda nos registros pode não significar uma redução efetiva da violência. "Historicamente, os estupros são subnotificados. Durante a pandemia, houve uma queda nos registros, mas isso não significou menos violência, e sim menos denúncias. Agora, com a volta à normalidade, esperava-se um aumento, mas vimos uma queda. Isso pode indicar que as vítimas ainda estão com medo de denunciar ou que as políticas de acolhimento não estão funcionando", afirmou.
O FBSP também destaca que a subnotificação é um problema crônico no Brasil. Estima-se que apenas 10% dos estupros sejam denunciados às autoridades. A pandemia agravou essa situação, com muitas vítimas isoladas com seus agressores e sem acesso a canais de denúncia.
Perfil das vítimas e agressores
Os dados mostram que a maioria dos estupros ocorre dentro de casa: 70% dos casos têm como local a residência da vítima ou do agressor. Em 82% dos casos, o agressor é conhecido da vítima, sendo que 34% são parentes próximos, como pais, padrastos, irmãos ou tios.
"A violência sexual no Brasil é doméstica e intrafamiliar. A queda nos registros pode estar relacionada à dificuldade de denunciar quando o agressor é um familiar. Muitas vezes, a vítima depende economicamente ou emocionalmente do agressor, o que dificulta a denúncia", explicou a pesquisadora do FBSP, Samira Bueno.
Políticas públicas e desafios
O governo federal anunciou em junho um pacote de medidas para combater a violência contra a mulher, incluindo a ampliação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e a criação de centros de acolhimento. No entanto, especialistas criticam a falta de investimento e a descontinuidade de programas.
"Precisamos de políticas que incentivem a denúncia e que protejam a vítima durante todo o processo. A subnotificação só será reduzida quando as vítimas confiarem no sistema de justiça e tiverem garantias de que não sofrerão represálias", afirmou a promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Silvia Chakian.
Impacto da pandemia e perspectivas
A pandemia de Covid-19 agravou a violência sexual no Brasil, com um aumento de 14% nos registros de estupro entre 2019 e 2020. Em 2021, o número continuou subindo, chegando a 66.300 casos. Em 2022, foram 68.900, e em 2023, 70.200. A queda em 2025 interrompe essa trajetória de alta, mas ainda não é suficiente para retornar aos níveis pré-pandemia.
"A queda de 4,7% é positiva, mas não podemos comemorar. Os números ainda são alarmantes, e a subnotificação nos impede de saber a real dimensão do problema. Precisamos de mais transparência nos dados e de políticas efetivas de prevenção e acolhimento", concluiu Samira Bueno.



