Anac diz ter sido enganada pela Voepass e falha contribuiu para queda
Anac admite engano pela Voepass e falha contribuiu para queda

O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em agosto de 2024, concluiu que uma falha estratégica nas tomadas de decisão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para o acidente. Segundo o documento, a atuação da agência permitiu que a Voepass continuasse operando mesmo diante de violações identificadas durante fiscalizações. A conclusão coloca a Anac entre os fatores contribuintes para a tragédia, ao lado de falhas da companhia aérea e de erros de pilotagem.

Anac foi enganada por informações falsas

Entre 2022 e 2024, fiscais da Anac notificaram a Voepass dez vezes por irregularidades no sistema de degelo das aeronaves. De acordo com o relatório, a empresa informava que os reparos haviam sido realizados e mantinha as aeronaves em operação. O sistema de degelo é apontado pela investigação como um dos elementos centrais para a queda do avião. O presidente da Anac, Álvaro Faierstein, afirmou em entrevista ao Fantástico que a agência foi enganada. “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros”, disse.

Faierstein explicou que a Voepass fornecia informações falsas aos fiscais. Em uma operação assistida, um fiscal da Anac exigia a substituição de uma peça e, posteriormente, encontrava um documento informando que a troca havia sido realizada, embora o reparo não tivesse sido feito. “Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: ‘Ó, você tem que trocar essa peça aqui’. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada”, relatou.

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Falhas concentradas na Voepass

Segundo o relatório, em 2023, a Voepass concentrou 82% das falhas apontadas pela Anac entre as empresas aéreas do país, apesar de responder por apenas 0,6% dos voos realizados no Brasil. A agência proibiu definitivamente a companhia de operar apenas em junho de 2025, dez meses após o acidente. Faierstein afirmou que, antes do acidente, o time técnico já havia detectado uma degradação na operação da companhia. “Nesses anos anteriores ao acidente, o nosso time técnico detectou uma degradação. Foram vários problemas de manutenção, reportes mentirosos, que a companhia dizia que trocava um determinado equipamento ou não trocava. Ou fazia de uma maneira errada”, disse.

O presidente da Anac também fez uma distinção entre fator contribuinte e responsabilidade direta. “O Cenipa aponta as ações da Anac como fator contribuinte. Não necessariamente diz que a Anac foi responsável pela queda do avião”, afirmou. Ele disse que a agência recebeu as conclusões com atenção e que pretende adotar as recomendações do relatório. “A aviação é um sistema muito complexo. Mas nós estamos olhando com muita humildade as recomendações do Cenipa para nós e vamos adotá-las.”

Mudanças nos processos de fiscalização

Após o acidente, a Anac decidiu mudar o processo de decisão sobre a suspensão de empresas aéreas. Segundo Faierstein, a definição sobre manter ou não uma companhia em operação deixará de ser apenas da área técnica e passará a envolver a diretoria da agência. “É uma decisão muito subjetiva. Então nós estamos trazendo isso para a diretoria tomar a decisão”, explicou. Questionado se isso significaria reconhecer que a Anac não é apenas um órgão técnico, ele respondeu: “Não digo político. Mas é um órgão que tem que ter uma visão matricial, uma visão de cima.”

Ao ser confrontado sobre que argumento poderia ser mais importante do que aviões operando em condições precárias e com risco de causar mortes, o presidente da agência reiterou que as fiscalizações haviam identificado não conformidades, mas afirmou que o problema estava nas informações repassadas pela empresa. “As fiscalizações foram feitas, foram detectadas não conformidades. Mas o que acontecia era que a empresa reportava à Anac que tinha feito a manutenção. E, na verdade, não tinha.”

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Detalhes técnicos da queda

O relatório final do Cenipa, com 258 páginas, concluiu que uma combinação de falhas da Voepass, erros da tripulação e deficiências na fiscalização da Anac contribuiu para a queda do avião em Vinhedo (SP). O documento aponta que a companhia mantinha uma cultura organizacional que permitia o adiamento de reparos e a continuidade de problemas considerados graves. O sistema de degelo aparece como um dos principais pontos. Segundo o Cenipa, o ATR 72 que caiu decolou com o equipamento inoperante e enfrentou sucessivos alertas de formação de gelo durante o voo.

A investigação concluiu que, diante do acúmulo de gelo nas asas, a tripulação manteve a aeronave em uma altitude onde havia condições favoráveis para a formação de gelo, em vez de buscar um nível mais seguro. Com a perda de sustentação, o avião entrou em estol e, depois, em um parafuso chato — uma situação considerada rara na aviação comercial. A aeronave perdeu cerca de 14 mil pés de altitude em aproximadamente um minuto antes de atingir o solo.

Em nota, a Voepass afirmou que sempre adotou procedimentos rigorosos de segurança, treinamento e manutenção, e disse que seus pilotos eram experientes e certificados. A Anac suspendeu definitivamente as operações da companhia em junho de 2025. Com a conclusão do relatório do Cenipa, as investigações criminais sobre o acidente continuam.