Anac admite ter sido enganada pela Voepass; relatório aponta 19 fatores para queda
Anac foi enganada pela Voepass, diz diretor; Cenipa aponta 19 fatores

O diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Álvaro Faierstein, afirmou em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, exibida no domingo, 26, que a Voepass informava ter feito reparos em suas aeronaves que, na verdade, não eram realizados. A queda do avião da empresa em 9 de agosto de 2024 provocou a morte de 62 pessoas que viajavam de Cascavel (PR) a Guarulhos (SP).

Diretor da Anac admite ter sido enganado

“Muitas das informações que a empresa nos enviava eram informações falsas. Eu vou citar um exemplo: na operação assistida, um fiscal da Anac chamava o mecânico da Voepass e falava assim: ‘Ó, você tem que trocar essa peça aqui’. Quando o fiscal ia lá ver, via que tinha o documento da troca, que ele tinha reportado a troca, mas que na prática não tinha trocado nada”, disse Faierstein.

O diretor-presidente chegou a admitir ao Fantástico que a agência foi enganada pela Voepass. “Eu posso dizer que sim. Muito sim. O nosso time técnico, o nosso corpo técnico, fez análises baseadas em documentos que não eram documentos verdadeiros”, afirmou.

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Relatório do Cenipa aponta 19 fatores contribuintes

A Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), concluiu que a queda do avião foi causada por um conjunto de falhas da empresa, da aeronave, dos pilotos e da Anac. A investigação, que durou quase dois anos, apontou 19 fatores que influenciaram na queda do avião, sendo 15 que contribuíram diretamente para o acidente. Os demais foram classificados como de contribuição indeterminada.

Um dos fatores contribuintes foi o fato da aeronave PS-PVB, modelo ATR-72, ter decolado sem condições adequadas: o limpador de para-brisa estava inoperante. Pelos manuais, o avião poderia decolar sem o equipamento, desde que as condições meteorológicas não fossem severas, como as do dia do acidente.

Falhas na manutenção e cultura de normalização de desvios

O Cenipa analisou 1.206 voos da aeronave que caiu, realizados entre agosto de 2023 e agosto de 2024. Os investigadores concluíram que um dos sistemas de degelo, responsável por inflar borrachas nas asas para quebrar o gelo, apresentava falhas recorrentes. Essas falhas foram registradas em voos imediatamente anteriores ao do acidente, mas não foram relatadas no diário de bordo por nenhuma das tripulações. “Houve normalização do desvio”, afirmou o encarregado da investigação, tenente-coronel aviador Paulo Mendes Fróes.

“Tivemos uma cultura organizacional de normalização de desvios dentro do operador. Ela vem de uma cultura de informalidade em que pilotos e mecânicos não relatavam falhas para que a aeronave pudesse voar no dia seguinte”, disse Fróes.

O relatório final apontou que a estrutura mecânica da empresa adotava a prática de usar em uma aeronave peças que estavam em pane em outra, ou utilizar componentes defeituosos estocados, para declarar as aeronaves como em situação regular para voo.

Pilotos mantiveram conversas pessoais durante momentos críticos

Os investigadores também concluíram que os pilotos mantiveram conversas sobre problemas pessoais durante momentos críticos do voo e não seguiram protocolos recomendados para enfrentar condições de gelo severo, como alterar a altitude. A constatação de normalização de desvios foi reforçada pela análise de mais de 15 mil voos da Voepass entre 2022 e 2024. Na comparação com outras companhias, as aeronaves registraram mais falhas, como no componente que indicava “degradação de performance”.

Segundo o relatório, piloto e copiloto estavam submetidos a uma “alta carga de trabalho”, o que pode ter explicado a ausência de medidas quando os sistemas indicaram a degradação de performance. “Uma carga de trabalho elevada pode ter causado surdez e cegueira por desatenção, quando o cérebro não consegue receber e processar as informações disponíveis naquele momento”, afirmou Fróes.

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Anac também é responsabilizada pela primeira vez

O Cenipa apontou falhas expressas da Anac, que não teria aproveitado no processo de gestão de risco “condições latentes identificadas”. Segundo a investigação, houve falta de supervisão sobre práticas informais na empresa. É a primeira vez que ações ou omissões da agência reguladora são relacionadas como fatores causadores de um acidente aéreo, segundo técnicos do Cenipa.

Em nota divulgada na quinta-feira, 23, a Voepass alegou que, ao longo de três décadas, “sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.”

Os 15 fatores contribuintes incluem aplicação inadequada dos comandos, falta de atenção devido a conversas informais, decisão de prosseguir o voo apesar de falha no degelo, condições meteorológicas severas, coordenação de cabine ineficiente, cultura de grupo complacente, cultura organizacional informal, julgamento de pilotagem inadequado, manutenção deficiente, percepção prejudicada, planejamento de voo insuficiente, processo decisório falho, processos organizacionais subaproveitados, supervisão gerencial ausente e atuação insuficiente da Anac.