Em São José do Rio Preto (SP), 70% das mortes no trânsito são causadas por motoristas embriagados, segundo levantamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). Mesmo após 18 anos da Lei Seca, a combinação de álcool e direção continua sendo a principal causa das tragédias nas vias urbanas e rodovias da cidade. Apesar do rigor das punições, que preveem suspensão da CNH, multa de valor gravíssimo e detenção, as estatísticas escondem histórias de famílias que convivem diariamente com o trauma, a dor e o luto da perda súbita.
Números alarmantes
Nos últimos 12 meses, foram registrados 2.145 acidentes de trânsito em Rio Preto, resultando em 50 mortes. Destas, 35 estavam diretamente relacionadas ao consumo de álcool pelos motoristas, representando os 70% citados. Os dados revelam que a imprudência ao volante não diminuiu com o endurecimento das penalidades. Para o promotor de Justiça Horival Marques de Freitas, a embriaguez raramente ocorre isoladamente. Segundo ele, a perda de reflexos e o excesso de autoconfiança gerados pelo álcool levam a um 'combo' de infrações: excesso de velocidade, ziguezague, manobras proibidas, direção na contramão e até transporte de passageiros sem cinto de segurança.
Casos que marcaram a cidade
Em fevereiro de 2025, o pastor Ademir Francisco Silva de Souza, 49 anos, voltava de moto para casa após um culto quando foi atingido por uma caminhonete em um cruzamento na Zona Norte. Testemunhas disseram que a condutora, de 34 anos, estava embriagada e furou o sinal vermelho. A viúva Anyldes Ferreira de Souza presenciou o acidente de longe sem saber que a vítima era o marido. 'Eu vi quando bateu, quando o corpo voou. Me desesperei e passei mal, mas em nenhum momento passou pela minha cabeça que fosse ele', relatou em entrevista à TV TEM. A confirmação do óbito veio durante a madrugada, após inúmeras tentativas frustradas de ligar para o celular do marido, que estava com os policiais que atuaram no resgate. Anyldes e a irmã foram ao local e ouviram que se tratava de um homem moreno, forte, pastor, pois havia uma Bíblia no chão. 'Meu mundo acabou ali', relembra. A motorista foi presa, mas solta após cinco dias e responde ao processo em liberdade, causando revolta na família. 'Não creio mais na Justiça brasileira. Pessoas impunes têm mais privilégios do que a família da vítima', desabafou Anyldes.
Outro caso é o de Igor Cesar da Silva Pacheco, 20 anos, atropelado na faixa de pedestres por um motorista embriagado e sem habilitação na Avenida Alberto Andaló, por volta das 22h, quando voltava do trabalho acompanhado de dois amigos, que tiveram ferimentos leves. O condutor, auxiliar de enfermagem Nivaldo Alex dos Santos, 29 anos, foi preso em flagrante, e a prisão foi convertida em preventiva. Igor sofreu convulsão, traumatismo craniano, perfuração no pulmão e precisou ser intubado, ficando na UTI do Hospital de Base até receber alta em 16 de julho. Sua mãe, Adriana César da Silva, expressou indignação: 'Saber que o filho foi atropelado por um incompetente que bebeu a tarde toda para sair de noite e pegar um carro… Achei que ia perder meu menino. Graças a Deus e pelas orações de todos, ele saiu dessa', desabafa.
Realidade brasileira e soluções
Freitas destacou que o Brasil tem um índice de mortes no trânsito cerca de seis a sete vezes maior do que o registrado em países europeus. Para reverter o quadro, ele defende a combinação de campanhas educativas, especialmente voltadas a crianças e jovens que estão se candidatando a se tornarem motoristas, com fiscalização rigorosa e um sistema de persecução penal eficiente para reduzir a impunidade. 'É fundamental que haja fiscalização e um sistema de persecução penal eficiente para garantir que a impunidade seja reduzida ao mínimo possível', conclui. Apesar dos 18 anos da Lei Seca, os números em Rio Preto mostram que o problema persiste, exigindo ações contínuas de conscientização e punição.



