A preceptora Mariá Lanzotti, com 33 semanas de gestação, foi a uma unidade de saúde na zona sul de São Paulo para receber a última vacina do calendário da gestante: a imunização contra o vírus sincicial respiratório (VSR). A proteção, segundo ela, é um alívio para a filha Estela, que ainda está no ventre. “É uma tranquilidade a mais que a gente leva na gestação”, afirma a mãe de segunda viagem.
VSR: principal causa de bronquiolite em bebês
A vacina contra o VSR é destinada às gestantes para proteger os bebês nos primeiros meses de vida contra infecções respiratórias, especialmente bronquiolite. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, crianças de até dois anos representaram 82% dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), totalizando mais de 35 mil casos. Desses, quase 24 mil eram bebês com até seis meses de vida.
A infectopediatra do Hospital Infantil Sabará, Flávia Jacqueline Almeida, explica que o VSR pode se manifestar de forma grave em bebês por ser o primeiro contato com o vírus e pela fragilidade das crianças. “É um pulmão muito pequenininho, os bronquíolos são extremamente finos. Quando esse vírus acomete essa região, o bebê fica grave, não consegue respirar e fica muito cansado”, detalha a médica.
Histórico de internação motiva busca por proteção
A filha mais velha de Mariá, Analua, aos quatro anos, precisou ser internada por uma doença respiratória que se agravou. “Ela agravou bastante, precisou de UTI, de cirurgia de emergência. Então foi uma vivência que eu gostaria ao máximo de poder protegê-las”, relata Mariá. Durante a gestação da primogênita, a vacina contra o VSR ainda não estava disponível no Brasil.
O imunizante foi aprovado pela Anvisa em 2023 e inicialmente oferecido na rede particular. Desde novembro de 2025, passou a integrar o SUS e o Calendário Nacional de Vacinação da Gestante. “Foi um marco pra nós pediatras o início da vacinação pra gestantes. A gente esperava há décadas essa vacina”, comemora Flávia Almeida.
Imunização passiva: anticorpos da mãe para o bebê
A imunização de gestantes para proteger os bebês é chamada de imunização passiva. Os anticorpos são gerados pela mãe e transferidos via placenta para o feto. “Essa proteção dura cerca de seis meses, que é o período mais importante, porque 75% dos bebês que internam com bronquiolite têm essa idade”, explica a infectopediatra. Por isso, a vacinação contra o VSR é indicada a partir das 28 semanas de gestação.
Outras vacinas essenciais na gestação
Além da vacina contra o VSR, a dTpa (tríplice bacteriana acelular) protege contra difteria, tétano e coqueluche – esta última conhecida como tosse comprida, que pode causar insuficiência respiratória. Gestantes devem receber uma dose em cada gestação a partir das 20 semanas. A cobertura vacinal da dTpa em 2025 foi de 85,4%, a mais alta entre as vacinas do calendário gestacional.
A vacina contra a Covid-19 passou a fazer parte do calendário em janeiro de 2025. Em 2024, apenas 6,5% das grávidas haviam recebido uma dose durante a gestação; no ano passado, esse índice subiu para quase 55%. As vacinas contra a Covid-19 e a gripe (Influenza) protegem tanto a mãe quanto o recém-nascido, por meio da transferência de anticorpos pela placenta, e podem ser tomadas em qualquer fase da gestação.
Proteção materna e redução de mortalidade
Mulheres grávidas apresentam resposta imunológica reduzida e maior vulnerabilidade a complicações respiratórias. “Além de proteger contra a mortalidade materna, que é o que a gente mais teme, as vacinas também protegem contra uma evolução desfavorável, um agravamento da doença, por exemplo, evitando internações em UTI e intubação”, afirma a professora da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP), Rafaela Costa.
Estudos do Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr) mostram que a vacina contra a Covid-19 reduziu em 46% o risco de gestantes irem para a UTI e em 80% a mortalidade. “É um efeito super expressivo de proteção”, destaca Rafaela, também pesquisadora do OOBr.



