Testosterona sem indicação dobra risco cardiovascular, mostra estudo
Testosterona sem indicação dobra risco cardiovascular

Homens que usam testosterona por conta própria, sem o diagnóstico de hipogonadismo, têm 51% mais chances de sofrer um evento cardiovascular grave — infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca ou morte — do que aqueles que fazem a reposição por uma necessidade clínica real. Essa é a conclusão do maior estudo já realizado para comparar diretamente os dois grupos, publicado na revista científica eBioMedicine, do grupo Lancet. Ao longo de até dez anos de acompanhamento, a mortalidade por qualquer causa quase dobrou entre os usuários que tomaram o hormônio sem precisar.

Quase um em cada três usuários não tem indicação médica

Os pesquisadores analisaram dados de 358.957 homens de 30 a 75 anos, todos com uso registrado de testosterona. Desses, 35,4% não tinham qualquer registro de hipogonadismo — nem exames alterados, nem sintomas que justificassem o tratamento. Para fazer uma comparação justa, a equipe utilizou uma técnica estatística que pareia os participantes por características semelhantes, como idade, peso, pressão arterial e doenças prévias. Assim, formaram 113.554 duplas, o equivalente a mais de 227 mil homens, acompanhados por até uma década.

No grupo sem indicação, além do risco 51% maior de eventos cardiovasculares graves, houve mais casos de AVC isquêmico, parada cardíaca e insuficiência cardíaca. A mortalidade por qualquer causa chegou a quase o dobro da observada no grupo com reposição clínica. A associação se repetiu em diferentes grupos raciais e étnicos, com variação de magnitude, mas sempre na mesma direção.

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Por que a pesquisa não usou placebo

O desenho do estudo explica por que os resultados são levados a sério. Uma pesquisa com sorteio para receber testosterona ou placebo seria inviável do ponto de vista ético. “Seria antiético dar uma carga de testosterona a um homem com níveis normais do hormônio, diante das evidências que já temos de que o excesso faz mal”, afirma Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Por isso, a investigação foi retrospectiva: em vez de sortear pessoas, os cientistas olharam para trás, para o histórico de quase 360 mil homens. Para reduzir o principal ponto fraco desse tipo de análise — a chance de os grupos serem diferentes desde o início —, aplicaram o pareamento estatístico. Como reforço, incluíram um “controle negativo”: mediram também a ocorrência de apendicite, um problema sem qualquer relação com a testosterona. Como esperado, não houve diferença entre os grupos nesse ponto. Isso indica que o excesso de eventos cardiovasculares não é fruto de um viés geral, e sim algo específico do hormônio.

O que o excesso de testosterona faz com o corpo

A explicação para o risco maior está no que acontece quando a testosterona ultrapassa os níveis normais. Quem usa o hormônio sem necessidade costuma atingir concentrações suprafisiológicas — acima do que o corpo produziria sozinho — e passa a colher os efeitos desse excesso, segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

O primeiro efeito é o estímulo à produção de glóbulos vermelhos. “O anabolizante faz a medula óssea produzir mais células vermelhas. O sangue fica mais viscoso, e sangue mais grosso favorece a formação de trombos”, afirma Mattar. Esse coágulo pode se formar em qualquer vaso — numa veia da perna, nas artérias do coração ou no cérebro, provocando infarto ou AVC. O excesso do hormônio também desencadeia um processo inflamatório que lesa a parede dos vasos, a chamada disfunção endotelial, que igualmente favorece a trombose e acelera o acúmulo de placas de gordura nas artérias. Somam-se a isso o espessamento do músculo cardíaco, que pode levar à insuficiência cardíaca, e a elevação da pressão arterial — o uso indiscriminado de anabolizantes é uma das principais causas medicamentosas de hipertensão secundária.

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Para Mattar, o conjunto desses fatores funciona como uma ameaça latente: “Viscosidade aumentada, inflamação, disfunção endotelial e alteração dos fatores de coagulação formam uma bomba-relógio para uma trombose a qualquer momento.”

Interromper o uso não é simples

Quem começa a usar testosterona sem indicação e decide abandoná-la enfrenta um obstáculo a mais. Quando um homem com níveis normais passa a tomar o hormônio por fora, o corpo interpreta que há testosterona demais e desliga a própria produção. “A testosterona aplicada inibe o estímulo da hipófise aos testículos. O corpo entende que não precisa mais produzir, e o testículo vai atrofiando”, explica Valente. Com o tempo, o órgão pode parar de funcionar normalmente, o que leva à infertilidade — em alguns casos reversível, dependendo da dose e da duração do uso — e deixa a pessoa dependente das aplicações para não sentir os sintomas da falta do hormônio.

Valente resume a diferença entre a reposição correta e o uso abusivo: “Se o homem está abaixo do nível fisiológico e eu o levo até ele, restabeleço uma normalidade. Se ele já está dentro da faixa e recebe testosterona, passa a ficar acima, e é aí que vêm os problemas.”

Pressão social e prescrição fácil

O avanço do uso sem indicação tem raízes que vão além do consultório. A testosterona aumenta a massa muscular e o número de glóbulos vermelhos, o que a tornou popular entre fisiculturistas e frequentadores de academia — muitas vezes em doses muito acima da fisiológica. Mas o fenômeno se espalhou. Nas redes sociais, fóruns masculinos tratam o nível do hormônio como medida de virilidade, uma pressão que, segundo Valente, chega ao consultório. Ele reforça que a testosterona não faz parte do check-up de rotina e só deve ser dosada diante de uma queixa clínica: ninguém é menos homem por ter uma dosagem de 300 em vez de 600, afirma.

O médico observa ainda que o próprio estilo de vida contemporâneo — sedentarismo, obesidade e alimentação rica em ultraprocessados — vem reduzindo os níveis do hormônio na população masculina ao longo das últimas décadas. O uso sem respaldo já não se restringe aos homens. Os dois especialistas relatam ver cada vez mais mulheres — muitas jovens, fora da menopausa — recebendo testosterona ou outros hormônios de ação androgênica, em geral por motivos estéticos e sem indicação que sustente a prática. Para as mulheres, no entanto, ainda faltam estudos do porte deste para dimensionar o risco cardiovascular, uma lacuna que ambos consideram urgente diante do avanço do uso.

Para os homens, o novo trabalho se soma ao das diretrizes atuais: a reposição de testosterona é segura quando corrige uma deficiência real, mas passa a cobrar um preço do coração quando serve apenas para elevar o hormônio acima do que o corpo precisa.