Terapia vocal afirmativa: voz e saúde mental trans no Dia do Orgulho
Terapia vocal afirmativa: voz e saúde mental trans

No Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, a terapia vocal afirmativa surge como ferramenta essencial para a saúde mental da população trans, indo além das conquistas jurídicas. A voz, uma das expressões mais fortes da individualidade, quando não reflete a identidade de gênero, pode gerar sofrimento psicológico e riscos sociais.

O que é a terapia vocal afirmativa?

O fonoaudiólogo e conselheiro do CREFONO-2, Ronielio Ribeiro de Sousa, explica que o conceito de "adequação vocal" foi superado pela terapia vocal afirmativa. "O objetivo central é expandir as possibilidades da voz e da expressividade para que reflitam a identidade da pessoa, promovendo conforto e autonomia, sem imposições normativas. A voz não dita o gênero; ela expressa a singularidade de cada corpo", afirmou.

Enquanto a testosterona engrossa a voz de homens trans, o estrogênio não afina a laringe de mulheres trans e travestis, tornando a fonoaudiologia indispensável. Forçar o trato vocal sem coordenação adequada pode causar fadiga crônica, dor ao falar, rouquidão persistente e lesões como nódulos nas pregas vocais.

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Impacto na saúde mental

A psicóloga Thaís Prestes Mazzotti, de Sorocaba (SP), destaca que o desalinhamento entre voz e identidade intensifica a disforia. "Quando a voz não corresponde à maneira como a pessoa se identifica, podem surgir sentimentos de frustração, desconforto e estranhamento em relação ao próprio corpo, afetando a autoestima e a autoconfiança", disse.

O misgendering – ser tratado pelo gênero errado devido à voz – amplia o sofrimento. "Essa repetição diária no trabalho, nos serviços de saúde ou em espaços públicos aumenta o sentimento de cansaço, invisibilidade e de não pertencimento. Quando persistentes, podem intensificar o sofrimento psíquico e agravar transtornos psicológicos", acrescentou Thaís.

Quando o alinhamento vocal ocorre, a qualidade de vida melhora: os pacientes ganham espontaneidade, segurança e melhor inserção no mercado de trabalho.

Voz, arte e segurança: relato de Victor Rocha

Victor Rocha, 29 anos, homem trans e autista, usa o canto como principal ferramenta de comunicação. O medo de que a hormonização silenciasse sua música o paralisou até iniciar a terapia vocal afirmativa há quatro meses. "É uma sensação assustadora. É muito bom, mas, às vezes, me dá uma saudade daquela voz... Mas eu confio que vou conseguir voltar a cantar um dia. É só... certo. E é muito bom", relatou.

A mudança no timbre trouxe proteção nas ruas. "É nítida a diferença de como me tratam dependendo da voz que eu falo 'boa noite'. Eu já fiz o teste de mascarar e forçar a voz antiga para ver se era coisa da minha cabeça, mas não é. É muito triste e enfurecedor. Então a principal mudança foi a segurança", afirmou.

Desafios de acesso no interior

Apesar dos benefícios, o acesso à terapia vocal afirmativa enfrenta barreiras. Ronielio aponta a centralização dos serviços do SUS nas capitais e a falta de cobertura por convênios. Na região de Sorocaba (SP), o CREFONO-2 orienta buscar fonoaudiólogos registrados e capacitados em Voz.

"O processo abre portas para a participação cidadã plena, permitindo que a pessoa ocupe espaços públicos e expresse seu potencial máximo no mundo", conclui Ronielio.

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