O Estado de São Paulo confirmou 15 casos de sarampo até ontem, reacendendo o alerta para uma doença que o Brasil praticamente eliminou graças a décadas de campanhas de imunização. Embora o número ainda seja considerado pequeno, ele é suficiente para expor uma fragilidade: a cobertura vacinal contra a tríplice viral está abaixo do necessário para garantir a proteção coletiva.
Os casos foram identificados e a resposta das autoridades de saúde veio na velocidade esperada. Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, houve investigação epidemiológica, rastreamento de contatos, busca ativa e reforço da vacinação, incluindo a recomendação da chamada dose zero para bebês em municípios de maior risco. O Brasil conhece os protocolos para impedir que casos importados se transformem em surtos. O desafio está em impedir que o vírus encontre uma população desprotegida o suficiente para voltar a circular.
O legado do Programa Nacional de Imunizações
Poucas políticas públicas brasileiras acumulam resultados tão expressivos quanto o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Construído ao longo de décadas e preservado por diferentes governos, tornou-se referência internacional ao oferecer vacinação universal e gratuita em todos os municípios do País. Foi essa política que praticamente eliminou doenças que durante décadas lotavam enfermarias e matavam crianças.
A recertificação da eliminação da circulação endêmica do sarampo, concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em 2024, confirma a força desse legado. No entanto, os números atuais mostram que essa conquista não é permanente e depende da manutenção de altas taxas de imunização.
Números da cobertura vacinal em São Paulo
Neste ano, segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, a cobertura da primeira dose da tríplice viral no Estado alcança apenas 77,5%, enquanto a segunda dose chega a 65,5%. Esses percentuais ficam muito abaixo dos 95% necessários para assegurar a chamada imunidade de rebanho, que protege inclusive quem não pode ser vacinado.
Independentemente das razões dessa queda, seu efeito é conhecido: amplia a vulnerabilidade diante da entrada de casos vindos do exterior. O vírus do sarampo é altamente transmissível e pode circular rapidamente em comunidades onde a vacinação está defasada.
O histórico recente do sarampo no Brasil
O histórico recente comprova essa relação. Entre 2018 e 2022, o Brasil registrou mais de 39 mil casos de sarampo após a reintrodução do vírus, favorecida pela combinação entre circulação internacional e redução da cobertura vacinal. Naquele período, surtos atingiram vários estados e exigiram uma resposta emergencial das autoridades sanitárias.
No Tocantins, no ano passado, um surto iniciado por uma família procedente da Bolívia concentrou-se em uma comunidade onde praticamente ninguém havia sido imunizado. O episódio ilustra como a baixa adesão à vacina pode transformar um caso importado em um foco de transmissão local.
O alerta vindo dos Estados Unidos
O que ocorre nos Estados Unidos reforça esse alerta. O país contabiliza mais de 2,2 mil casos de sarampo apenas neste ano, o maior avanço da doença em décadas, impulsionado pela queda da vacinação. O vírus não se tornou mais agressivo nem a vacina perdeu eficácia. O que mudou foi a quantidade de pessoas suscetíveis à infecção.
Especialistas apontam que a desinformação sobre vacinas, disseminada principalmente nas redes sociais, tem contribuído para a hesitação vacinal em diversos países. No Brasil, o movimento antivacina também preocupa, embora o PNI ainda mantenha uma das maiores coberturas do mundo.
A solução já existe e está disponível no SUS
A solução para o sarampo já existe. A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é gratuita e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). O calendário nacional prevê duas doses para crianças e adolescentes, além de reforços para adultos que não tenham comprovação de imunização.
Em um mundo onde vírus atravessam fronteiras com facilidade, o maior risco não é a importação de casos, mas permitir que eles encontrem bolsões de pessoas não vacinadas. Manter a caderneta em dia não é apenas uma decisão individual. É a forma de preservar uma conquista coletiva que o Brasil levou décadas para construir.
O que a população deve fazer
As secretarias municipais e estaduais de saúde orientam que pais e responsáveis verifiquem a caderneta de vacinação de crianças e adolescentes. Adultos que não têm certeza se tomaram as duas doses da tríplice viral também devem procurar uma unidade de saúde. A chamada dose zero, indicada para bebês de 6 a 11 meses em áreas de maior risco, é uma medida adicional de proteção, mas não substitui as doses programadas no calendário.
A vigilância constante e a manutenção das altas coberturas são as únicas ferramentas capazes de evitar que o sarampo volte a circular de forma endêmica no Brasil. O país já mostrou que sabe vencer essa doença. O desafio é não relaxar justamente quando a vitória parece garantida.



