Moradores de São Luís têm problemas de pele após vazamento químico
Problemas de pele após vazamento em São Luís

Moradores de uma comunidade com cerca de 70 famílias no bairro Vila Maranhão, em São Luís, relatam coceira, queimaduras e manchas vermelhas na pele. Os sintomas começaram após a instalação de uma empresa de fertilizantes e se intensificaram depois de um vazamento químico ocorrido em fevereiro de 2026. A Valen Fertilizantes contesta a relação entre o episódio e os problemas de saúde, apontando outras possíveis causas.

Relatos de moradores e atendimentos médicos

Entre os casos está o de Margarida, de 78 anos, que foi internada com dermatite seborreica e inflamação na pele. A filha afirma que a mãe nunca havia apresentado esses problemas. "Minha mãe não tinha nada na pele, era uma pele limpa. E hoje em dia, minha mãe, tão de repente, minha mãe ficou numa situação difícil", disse. A avó de outra moradora, Josiane, também sofre com coceira e queimaduras; recebeu diagnósticos de psoríase, erisipela e escabiose.

A empresa Valenfert começou a operar em julho de 2023, licenciada pelo órgão ambiental estadual. Segundo o gerente-geral Alfredo Gonçalves, o vazamento de fevereiro foi o único registrado. Ele explica que resíduos de adubo presos a uma máquina foram levados pela chuva em direção à comunidade. "A gente comprou um outro maquinário que veio de uma empresa lá de São Paulo e a gente colocou no fundo da fábrica porque era a época que não estava chovendo ainda, mas as chuvas começaram e aí solubilizou um pouco do adubo que estava grudado nessas máquinas e escorreu para a comunidade", afirmou.

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Impactos na saúde e na comunidade

O geógrafo Marcelino Farias explicou que fertilizantes à base de nitrogênio, ao entrar em contato com a água, se transformam em nitratos e nitritos, substâncias tóxicas por ingestão ou contato com a pele e vias aéreas. Uma dermatologista ouvida pela reportagem destacou que a exposição à amônia pode provocar coceira, ardência e queimaduras, dependendo do nível de exposição.

A pedido do Ministério Público do Maranhão, a Justiça determinou que a Valenfert retirasse as famílias da área e adotasse medidas emergenciais, como monitoramento por equipes técnicas do Estado e do município. A empresa informou que realizou três ações médicas na comunidade, uma com a Defesa Civil, e contratou a Clínica da Gente, que realizou 71 atendimentos. Segundo a clínica, os resultados não indicaram contaminação por amônia. Moradores, porém, afirmam que nem todos foram examinados e que alguns não receberam resultados.

Qualidade da água e medidas adotadas

Análise da Vigilância em Saúde não identificou contaminação por fertilizantes nos lençóis freáticos, mas moradores foram orientados a não consumir água dos poços. A empresa passou a fornecer galões de água mineral. Uma moradora relatou: "Nós usamos a água daqui para banhar, só para banhar e lavar roupa".

A Prefeitura de São Luís notificou a empresa por risco ambiental e interditou as atividades em fevereiro de 2026, após o derramamento no dia 4. O Ministério Público pede a condenação da empresa, que nega a relação com os problemas de saúde e aponta outras empresas na região como possíveis causas. O caso aguarda audiência para definir perícia e depoimentos. O juiz responsável afirmou que ainda não é possível determinar a versão correta.

Posicionamento das autoridades

A Secretaria Municipal de Saúde (Semus) informou que acompanha a situação por meio da Atenção Primária e da Vigilância em Saúde, com consultas, visitas domiciliares e monitoramento da água. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam) autuou a empresa, aplicou sanções como embargo e multa, e encaminhou os autos ao Ministério Público e ao Judiciário. A comunidade cobra assistência médica contínua, acesso a exames e solução definitiva. "Tem gente que nasceu e se criou aqui, entendeu?", disse uma moradora.

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