Polilaminina: 6 de 8 pacientes com lesão medular têm recuperação
Polilaminina: 6 de 8 com lesão medular têm recuperação

Um estudo pioneiro sobre a aplicação de polilaminina em seres humanos, publicado na revista científica Spinal Cord (do grupo Springer Nature) nesta terça-feira (4), revela que seis de oito pacientes com lesão traumática da medula considerada completa apresentaram algum grau de recuperação motora. A pesquisa, que avaliou a segurança e a viabilidade do procedimento, é um passo inicial, mas ainda não permite concluir que a substância seja a responsável pela melhora, segundo os próprios autores e especialistas ouvidos pelo g1.

O artigo é uma versão revisada do estudo que circulou como pré-print em 2024 e que havia sido rejeitado por outros periódicos. A publicação traz correções importantes, como a de um gráfico que atribuía cerca de 400 dias de acompanhamento a um paciente que faleceu cinco dias após o procedimento. A pesquisadora Tatiana Sampaio, uma das autoras, reconheceu os problemas no texto em março, e a versão final corrige esse erro.

O que o estudo avaliou e quais os resultados

O objetivo principal do estudo era testar se a injeção de polilaminina diretamente na medula espinhal era segura e tecnicamente possível em humanos. Participaram oito pacientes com lesão medular traumática completa, ou seja, sem função motora ou sensitiva abaixo do nível da lesão. Segundo o artigo, não houve piora neurológica nem eventos adversos graves diretamente atribuídos ao procedimento. Três pacientes morreram durante o acompanhamento – por pneumonia, tamponamento cardíaco e sepse –, mas os casos foram avaliados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e não foram relacionados à aplicação da substância.

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Dos oito pacientes, seis apresentaram alguma recuperação motora. No entanto, os autores destacam que, como não houve um grupo de comparação com pacientes semelhantes que não receberam a polilaminina, não é possível determinar se a evolução veio da substância, da recuperação natural, da cirurgia ou da fisioterapia. “Sem um grupo controle, qualquer conclusão sobre eficácia é prematura”, afirma o neurocirurgião João Carlos de Araújo, que não participou do estudo, em análise ao g1.

Choque medular e taxa de recuperação espontânea

O novo artigo traz mais detalhes sobre os exames realizados para afastar o chamado choque medular, uma condição temporária que pode mascarar a gravidade inicial da lesão e confundir a avaliação. Ainda assim, o estudo não informa quantos pacientes foram avaliados e ficaram de fora da amostra final, o que poderia dar uma ideia mais clara da seleção dos participantes.

Um ponto sensível é a taxa de recuperação espontânea usada como referência. No pré-print, os pesquisadores citavam cerca de 9%. No artigo publicado, passaram a citar uma faixa de 0% a aproximadamente 15%. Durante tentativas anteriores de publicação, revisores apontaram estudos que mostravam taxas que poderiam chegar perto de 40%. Essa diferença é crucial, pois os autores usam a recuperação de 75% da amostra (seis de oito) para afirmar que o resultado parece superior ao esperado. Sem uma comparação direta com pacientes semelhantes que não receberam a substância, essa conclusão permanece limitada.

O que a polilaminina pode fazer e o que ainda não se sabe

A polilaminina é uma proteína modificada que tem como objetivo estimular a regeneração dos axônios – as fibras nervosas que transmitem os impulsos elétricos – na medula espinhal. Em testes pré-clínicos, mostrou resultados promissores em animais, mas a transição para humanos é complexa. “A segurança foi o foco deste primeiro estudo. Para saber se o tratamento realmente contribui para a recuperação dos pacientes, ainda serão necessários estudos maiores, com grupos de comparação”, explica Tatiana Sampaio, pesquisadora responsável.

O caso ganhou repercussão nacional em 2024, quando o paciente Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular aguda em 2018 e participou do estudo, voltou a andar e levou a polilaminina aos trending topics. Drummond, que se tornou uma figura pública, compartilhou sua evolução nas redes sociais, mas os pesquisadores alertam que resultados individuais não podem ser generalizados.

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Próximos passos da pesquisa

Os autores afirmam que o estudo abre caminho para ensaios clínicos de fase 2 e 3, que deverão incluir um número maior de pacientes e um grupo de controle randomizado. Esses estudos são essenciais para estabelecer se a polilaminina é realmente eficaz e para identificar quais pacientes poderiam se beneficiar do tratamento. Enquanto isso, a comunidade científica permanece cautelosa, mas reconhece a importância de se explorar novas abordagens para uma condição que afeta milhares de pessoas no Brasil e no mundo.

Para especialistas, a publicação em um periódico revisado por pares é um avanço, mas não elimina as incertezas. “A ciência avança passo a passo. Este é um primeiro passo, mas ainda há um longo caminho até que possamos falar em cura ou mesmo em uma terapia comprovada”, conclui o neurocirurgião Araújo.