Novas frentes contra o câncer: da vacina personalizada ao exercício físico
Novas frentes contra o câncer: vacina personalizada e exercício

O medicamento daraxonrasibe, que ataca o gene RAS, quase dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas em comparação com a quimioterapia, segundo o estudo RASolute 302 apresentado na 61ª reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), realizada em maio em Chicago. A plateia de milhares de médicos se levantou para aplaudir o resultado, considerado "transformador" para uma doença cuja sobrevida em cinco anos é de apenas cerca de 3%.

Vacinas personalizadas: um remédio para cada paciente

Outra frente de avanço são as vacinas personalizadas baseadas em mRNA, tecnologia conhecida na pandemia de Covid-19. Após a cirurgia, os cientistas analisam o material genético do tumor e produzem uma vacina sob medida que ensina o sistema imune a reconhecer as células cancerígenas. Na conferência, foram apresentados resultados de cinco anos de estudo com pacientes de melanoma de alto risco: quem recebeu a vacina Intismeran combinada com imunoterapia teve quase metade do risco de a doença voltar ou levar à morte, em comparação com quem recebeu apenas imunoterapia. Cerca de 69% dos pacientes vacinados estavam livres do câncer após cinco anos. A mesma estratégia já está sendo testada em tumores de pâncreas, pulmão e bexiga.

Exercício físico como remédio

O estudo internacional CHALLENGE mostrou que um programa estruturado de exercício físico após a cirurgia de câncer de intestino reduziu o risco de recidiva e aumentou a sobrevida. A taxa de sobrevida livre da doença em cinco anos foi de 80,3% no grupo de exercícios, contra 73,9% no grupo que recebeu apenas orientações educativas. O ganho é comparável ao de alguns medicamentos aprovados, com a vantagem de ser uma intervenção simples e de baixo custo. Pesquisadores também demonstraram que o programa é vantajoso do ponto de vista econômico, o que é relevante para sistemas de saúde públicos e privados.

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Reposicionamento de drogas e inteligência artificial

Uma dose baixa de aspirina reduziu pela metade o risco de recidiva em um grupo de pacientes com câncer de intestino identificado por exame genético. O abemaciclibe, originalmente criado para câncer de mama, tornou-se o primeiro tratamento eficaz contra um sarcoma raro e agressivo, pois ambos os tumores compartilham a mesma engrenagem celular avariada. Segundo Thiago Jorge, coordenador do Setor de Tumores Gastrointestinais do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, "para um país como o Brasil, essa frente é especialmente valiosa: a esperança que cabe no orçamento pode chegar a muito mais gente". A inteligência artificial tem sido fundamental para conectar essas descobertas, identificando padrões em grandes volumes de dados e prevendo quais pacientes responderão a cada tratamento. Na conferência, os estudos com IA se multiplicaram, com trilhas dedicadas ao tema, inclusive para levar essas ferramentas a regiões com poucos recursos.

O progresso é paciente e multifacetado

O autor conclui que a ovação em Chicago não celebrava um lampejo de sorte, mas o acúmulo de décadas de ciência teimosa. "O progresso contra o câncer raramente é um milagre súbito. É paciente, vem de muitas direções ao mesmo tempo e, agora, conta com uma ferramenta nova para apressar o passo."

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