Mulher que fingia ser adolescente teve três diagnósticos psiquiátricos no RS
Mulher que fingia ser adolescente teve 3 diagnósticos no RS

Uma mulher que ficou conhecida por se passar por adolescente e mobilizar conselhos tutelares, hospitais, famílias e autoridades em várias cidades brasileiras recebeu ao menos três diagnósticos psiquiátricos, conforme documentos judiciais do Rio Grande do Sul. O caso de Amanda Maria Souza de Oliveira, revelado em um processo criminal de 2022 do Ministério Público do estado, inclui registros de transtorno factício, pseudologia fantástica e, posteriormente, transtorno de personalidade borderline.

Como agia Amanda

Assim como nos episódios ocorridos em Santa Catarina, Amanda se apresentava como uma menina de 11 ou 12 anos chamada Gabrielly da Silva Ferreira. Com essa identidade falsa, conseguiu acolhimento em residências de famílias, instituições religiosas e serviços públicos voltados à proteção de crianças e adolescentes. A reportagem da RBS TV obteve acesso à íntegra da denúncia do processo, que tramitava em sigilo.

O parecer do Ministério Público anexado aos autos afirma: "A investigada recebeu atendimento psiquiátrico no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, sendo diagnosticada com Transtorno Factício e Pseudologia Fantástica, sendo atestado que Amanda possui comportamento manipulador, trazendo à sociedade prejuízo considerável ao passar por diversas instituições de acolhimento, inclusive para menores, mobilizando diversos órgãos públicos, como Promotorias de Justiça, Forças Policiais, Serviços Sociais e de Saúde."

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O que são os transtornos

Segundo Fernanda Palhares, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o transtorno factício é caracterizado pela falsificação de sintomas físicos ou psicológicos sem um incentivo externo óbvio. "A motivação se dá por assumir um papel de fragilidade clínica ou psicológica onde os sintomas são geralmente convincentes. Os pacientes costumam buscar inúmeros profissionais e locais de atendimento, oferecendo relatos vagos e inconsistentes, o que pode ser verificado através de histórico médico. Costumam abandonar os tratamentos quando confrontados sobre a simulação", explicou.

O processo também registra que profissionais do Hospital Presidente Vargas desconfiaram da idade informada pela paciente e localizaram um artigo científico que descrevia um caso semelhante. A partir daí, levantaram a hipótese de que ela era a mesma pessoa citada em estudos anteriores. O contato com os pesquisadores que já haviam analisado o caso confirmou a suspeita.

Diagnósticos diferentes

Os documentos analisados tratam de avaliações realizadas em momentos distintos. Enquanto o transtorno factício e a pseudologia fantástica aparecem em registros de atendimento psiquiátrico hospitalar mencionados pelo Ministério Público, o diagnóstico de transtorno de personalidade borderline foi apontado posteriormente em perícia realizada pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP).

No processo, o MP sustenta que Amanda se vitimizava a ponto de introduzir objetos metálicos no próprio corpo, atribuindo-os a supostos rituais de magia, e utilizava esse relato para obter acolhimento. Uma avaliação foi solicitada ao IGP e o laudo concluiu que Amanda apresentava transtorno de personalidade borderline. O documento ressalta que condutas criminosas podem ocorrer em contextos de irritabilidade e agitação extremas.

A doutora em Psicologia afirma que o transtorno borderline é "caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade e hipersensibilidade nos relacionamentos interpessoais, instabilidade na autoimagem, flutuações extremas de humor e impulsividade. Pacientes com o transtorno não toleram estar sozinhos. Fazem esforços frenéticos para evitar o abandono, sendo comum se envolverem em situações de risco com a intenção de serem resgatados e cuidados. Importante destacar que, no borderline, as crises emocionais e impulsivas são reais e geradas pela desregulação do afeto e pelo medo de abandono", afirmou.

Fernanda ainda diz que é comum diagnósticos desses transtornos de forma simultânea: "O borderline precisa atenção para evitar o abandono. É comum surgir o factício para assegurar o cuidado que o border necessita."

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Processo retomado

Com base na avaliação realizada no âmbito do processo, o perito concluiu que Amanda Maria Souza de Oliveira era, à época dos fatos, parcialmente incapaz de compreender plenamente o caráter ilícito das condutas pelas quais foi denunciada e de determinar-se de acordo com esse entendimento. Por causa desse processo, Amanda chegou a ficar cerca de seis meses presa no Rio Grande do Sul. A ação penal estava sobrestada — ou seja, suspensa — porque ela não havia sido novamente localizada após deixar o sistema prisional. Com a prisão dela em Santa Catarina, o MP pediu a retomada da tramitação do processo.

O que diz a defesa de Amanda

A defesa de Amanda, representada pelo advogado Rafael Luiz Siewert, manifestou-se: "A Defesa recebe com serenidade a denúncia apresentada pelo Ministério Público. Cumpre destacar que, na mesma decisão em que recebeu a denúncia, o Magistrado determinou a suspensão do processo até a realização de exame pericial pela Polícia Científica, agendado para o dia 26 de junho de 2026. Assim, até que o laudo pericial seja concluído e juntado aos autos, o processo permanecerá suspenso, aguardando o resultado da perícia."